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  Título
O vazio da história e os lugares de memória em Los Rubios, de Abertina Carri
Autor
Mônica Brincalepe Campo
Resumo Expandido
O filme Los Rubios, de Albertina Carri, realizado em 2003, é uma das grandes obras produzidas no nuevo cine argentino (NCA), iniciado desde meados dos anos 1990. O tema central é a ausência dos pais da diretora, sequestrados e desaparecidos em meio ao regime militar argentino quando ela contava com três anos de idade, em 1977. Roberto Carri (sociólogo e jornalista) e Ana María Caruso (letras) eram militantes do peronismo revolucionário e conhecidos por suas atividades acadêmicas. Deixaram três filhas, sendo Albertina a caçula.

Para discutir o vazio provocado com o desaparecimento dos pais as opções estilísticas da diretora não são convencionais. Carri ficcionaliza a experiência vivenciada utilizando playmobils, perucas loiras e uma atriz, Analía Couceyro, a interpreta-la, entre outros recursos. No filme há as cabeças falantes das entrevistas de militantes contemporâneos aos pai, pesquisa iconográfica (fotografias) e entrevistas com os vizinhos no bairro em que moravam quando foram sequestrados. Os relatos obtidos pertencem ao passado, são projeções que se colocam sobre o presente (Noriega, 2009), e não a satisfazem.

Carri e sua equipe também aparecem em cena discutindo encaminhamentos, tornando a reflexão parte integrante da narrativa. Em uma das sequências a equipe lê e discute a justificativa de recusa de uma agência de fomento para o financiamento do filme. Após a discussão, deixam claro que os critérios solicitados pela agência não são a proposta do filme, mas aquela de outra geração e não a da diretora e de sua equipe.

Albertina Carri questiona o lugar em que se encontra e a maneira como as memórias sobre os ausentes têm sido articuladas para racionalizar a experiência histórica. Ela explicita que apesar de tudo não ocorre o preenchimento do vazio, pois tais tentativas discursivas não conseguem lidar com as lacunas. O vazio que ela sente não fica preenchido com os discursos convencionais.

Pode-se dizer que o filme de Carri questiona os lugares de memória consagrados em Pierre Nora por não se satisfazer com a operação historiográfica a produzir a história. Em Nora a operação historiográfica é capaz de submeter a memória ao compreende-la na história. Sendo assim, em Los Rubios a representação realizada sobre a memória da ausência dos pais é menos aristotélica e mais proustiana, pois sensorial, portanto, distante da operação apregoada por Nora.

Em Carri, a racionalidade consciente não é bem sucedida em suplantar a ausência ou a sensação de desamparo, o grito (que é encenado). Los Rúbios é uma atualização do passado no presente, uma necessidade de sua diretora. É construção discursiva, ou seja, outra narrativa que não irá nunca preencher as lacunas deixadas porque se faz respeitando a permanente existência das fraturas da história.

A história pode ser composta, construída, a pesquisa científica é possível, entretanto, esta operação é fraturada e deve aprender a lidar com as lacunas próprias às memórias, como já indicou Paul Ricouer. Se a história e a memória forem opostas não se conseguirá perceber ou congregar a riqueza inerente às percepções espontâneas, (in)voluntárias, (in)conscientes que afloram para o permanente refletir da condição humana.
Bibliografia

AGUILAR, Gonzalo. Otros mundos. Ensayos sobre el nuevo cine argentino. Buenos Aires, Santiago Arcos (ed.), 2006.

NORA, Pierre. Les Lieux de mémoire. Paris, Gallimard, col. “Bibliotèque illustrée des histoires”, 1984-1986. (Vol. III, Les France, t. 3.)

NORIEGA, Gustavo. Estudio crítico sobre Los Rubios: entrevista com Albertina Carri. 1.ed. Buenos Aires: picnic Editorial: Paula Socolavsky, 2009.

RICOEUR, Paul. A memória, a história o esquecimento. Tradução: Alain François (et al.). Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.

RIERA, Elena López. Albertina Carri. El cine y la furia. 1.ed. Valencia: Ediciones de la Filmoteca (Instituto valenciano del audiovisual Ricardo Muñoz Suay), 2009.