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  Título
Iniciação a uma fenomenologia da encenação documentária
Autor
Fernão Pessoa Ramos
Resumo Expandido
Ao propormos uma fenomenologia da encenação documentária estamos lidando, de modo simultâneo, com narrativas em que predominam vozes (em over/off), falas (corpo em campo) e imagens, que enunciam através de asserções sobre o mundo e/ou expressões líricas ancoradas na experiência do eu subjetivo. Pode-se, no documentário, abandonar a discursividade assertiva e flexibilizar a matéria imagética-sonora pela densidade do 'eu' que enuncia. Sem abandonar o campo que define sua particular narrativa como documentário. O importante, na definição do horizonte conceitual, é negarmos parâmetro ético exclusivo a procedimentos estabelecidos na fragmentação, ou achatamento, da entidade subjetiva que sustenta essa narrativa. Isto posto, teremos liberdade para trabalhar com a tradição documentária como um todo, em sua dimensão histórica. Sem buscar adequar a extensão diacrônica do campo a demandas normativas que correspondem a valores estritamente contemporâneos.

Definida a narrativa documentária em suas modalidades, com colorações mais assertivas ou líricas, ou ambas alternadamente, poderemos caminhar para a análise que recorte um fio teórico no campo que estou chamando de fenomenológico. E o fio do novelo me parece claro. Trata-se de nos debruçar sobre o momento fundador da imagem-câmera, a tomada propriamente. As imagens-câmera com origem em tomada, certamente não esgotam o campo imagético do documentário: imagens animadas, digitais ou não, sempre estiveram presentes, mesmo nos documentários mais clássicos. Ao colocarmos no centro de nossa análise a circunstância da tomada que compõe as imagens-câmera, abrimos espaço para trabalharmos de modo efetivo com o que iremos denominar a encenação documentária. A encenação documentária recai principalmente sobre a ação do corpo na circunstância da tomada, ao se oferecer, interagindo com outros seres e coisas, à máquina câmera corporificada por um sujeito que a sustenta no mundo. O corpo na cena documentária compõe e define o espaço cênico pela presença da câmera, singularizando, nessa ênfase, uma forma narrativa e uma forma imagética (a imagem-câmera). Ao oferecer-se à câmera, e à instância fundadora de subjetividade que sustenta a câmera, o corpo na cena documentária lança-se ao espectador. A máquina câmera na tomada incorpora, dá propriamente corpo, a uma subjetividade que chamo 'sujeito-da-câmera'. A presença da câmera flexiona a tomada, pois tem o dom de trazer para seu centro de gravidade a presença futura do espectador. Ela, máquina câmera, deforma (ela na realidade forma) a ação do corpo na tomada jogando (e trazendo) a alteridade espectatorial pela presença do sujeito-da-câmera. A essa flexibilização da ação de um corpo na tomada, atraído pela força de gravidade do sujeito-da-câmera, chamamos de 'encenação documentária'. À flexibilização da expressão de afeto (fisionomia de um sorriso em primeiro plano, oferecendo-se para câmera), sentindo a força de gravidade da presença do sujeito-da-câmera na tomada, também chamamos 'encenação documentária'. A encenação documentária é composta pela ação do corpo e pela afecção (expressão de afeto) na tomada, conforme mais ou menos marcada pelas diferenciadas formas de presença do sujeito-da-câmera. Podemos localizar, na história do cinema, duas formas dominantes de mise-en-scène, ou encenação documentária: o que chamo de 'encenação direta' e 'encenação construída'. Pretendemos, na comunicação, abordar as particularidades de ambas na diversidade de sua configuração autoral.

Bibliografia

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Ranciére, Jacques. La Fable du Cinéma. Paris, Seuil, 2001.

Aitken, Ian. Realist Film Theory and Cinema: The Nineteenth-Century Lukácsian and Intuitionist Realist Traditions. Manchester,Manchester University Press, 2006.

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