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  Título
O circo de Arnaldo Jabor: reflexões sobre a história do documentário
Autor
Rosana Elisa Catelli
Resumo Expandido
Este trabalho é uma análise do documentário O circo (1965) de Arnaldo Jabor, a partir da reconstrução do processo de produção e recepção do filme. O circo foi realizado após a participação de Arnaldo Jabor no Seminário de Cinema de Arne Sucksdorff, em 1962, no Rio de Janeiro. Esse cineasta sueco veio ao Brasil para introduzir as técnicas do cinema direto, num curso financiado pela UNESCO e Itamaraty. Vários jovens cineastas brasileiros da década de 1960 participaram desse seminário

O cinema foi eleito pela UNESCO, desde o seu surgimento em 1945, como um dos auxiliares na missão de proclamar a paz pelo mundo. Projetos cinematográficos estiveram presentes nas ações desse organismo como auxiliar nas propostas de educação para crianças, para os jovens e para a alfabetização de adultos. Essas ações visavam principalmente missões dirigidas aos países do terceiro mundo, em países com grande contingente de analfabetos. Vários cineastas, principalmente documentaristas, fizeram parte desses projetos. Na década de 1960, a atuação da UNESCO na área de cinema esteve vinculada à formação de jovens cineastas e ao incentivo dos novos cinemas nos países do terceiro mundo. Louis Marcorelles foi um dos nomes da crítica de cinema francesa que participou dessas ações da UNESCO. Marcorelles foi também grande incentivador dos novos cinemas e próximo do Cinema Novo brasileiro.

O filme O circo pode ser abordado também como resultado dessas ações em prol dos novos cinemas. A partir de 1964 intensifica-se a produção de filmes do Cinema Novo no Brasil, com a realização de numerosos documentários inspirados no cinema direto e cujo conteúdo se debruçava sobre os questionamentos sociais.

O circo foi filmado em 35 mm, com côr e som sincrônico, feito com o “Nagra” ofertado pela UNESCO e trazido por Arne Sucksdorff para o Seminário de Cinema. Arnaldo Jabor foi um dos primeiros cineastas, na década de 1960, em usar no Brasil os equipamentos mais leves, com som sincrônico. Num depoimento a respeito do filme, Jabor diz que saiu às ruas para captar o rosto e a voz do brasileiro. A equipe registrou por dois meses a vida de artistas circenses pelos subúrbios cariocas. Trata do cotidiano dos artistas circenses, que viviam a decadência desse tipo de entretenimento frente aos avanços de práticas culturais trazidas pela Indústria Cultural. É um documentário que focaliza uma realidade urbana, tematiza o conflito entre o velho e o novo, a partir de uma série de testemunhas pertencentes ao circo, que falam de suas vivências e memórias.

O filme foi realizado na vertente do cinema direto, com o apoio da Divisão de Difusão Cultural (DDC) do Itamaraty, do Serviço do Patrimônio Histórico Nacional e do Instituto Nacional de Cinema Educativo. O INCE, na época, dirigido por Flávio Tambellini, emprestou os equipamentos para que o filme pudesse ser realizado. A produção executiva coube ao Embaixador Arnaldo Carrilho, que era chefe da DDC. Carrilho foi grande incentivador do movimento do Cinema Novo brasileiro e responsável por iniciativas que contribuíram para a difusão do cinema direto no Brasil. Segundo um relatório do Itamaraty, de 1965, escrito por Arnaldo Carrilho, os filmes que deveriam ser patrocinados pela DDC seriam aqueles que analisassem e retratassem a realidade brasileira, de forma autêntica e não exótica. Objetivo este assumido pelo Cinema Novo brasileiro, que pretendia contribuir para o surgimento de uma consciência popular a partir de novas formas de se fazer cinema. Outros dois integrantes da equipe técnica do filme foram também do curso de Arne Sucksdorff: Eduardo Escorel (sincronização) e Carlos Diégues (montagem).

O circo participou de vários festivais internacionais de cinema, entre eles: o Festival de Bérgamo (1965), Festival dei Popoli (1966), ganhou o prêmio de melhor curta na Semana do Cinema Brasileiro (1965). O filme circulou intensamente pelas embaixadas brasileiras em mostras de cinema brasileiro.

Bibliografia

FIGUEIRÔA, Alexandre. A luta por uma estética nacional. IN: Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, s/d. disponível em http://bndigital.bn.br/redememoria/cinovo.html.



MENDES, Junior. Le tournage au direct et les influences des nouvelles techiniques au cinema et a la television au brésil. Paris : UNESCO, 1965.



NEVES, David. A descoberta da espoentaneidade (breve histórico do cinema direto no Brasil). Rio de Janeiro: Revista Contracampo.



RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é mesmo documentário. São Paulo: SENAC, 2008.