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  Título
Cozarinsky: a ruína, a história, o fragmento
Autor
Maria Augusta Vilalba Nunes
Resumo Expandido
Na obra do cineasta e escritor argentino Edgardo Cozarisnky, observa-se uma relação estreita entre memória, a história e um certo conceito de ruína. Porque, como na alegoria do anjo de Walter Benjamin, Cozarinsky sabe que o passado é um acúmulo de ruínas, e assim como o anjo ele tem seu olhar voltado para trás, mas ao contrário dele, Cozarinsky consegue juntar os fragmentos desse passado adormecido, despertando-os e remontando-os em outro tempo.

Cozarinsky trabalha em muito de seus filmes, senão a maioria, com imagens de arquivo, ele reencena a história com essas imagens resgatadas e possibilita ao passado se consumar no presente. Dar vida a uma imagem que estava temporariamente "morta", esperando para ser ressuscitada é fazer dela um fantasma que retorna, um efeito que se abre a uma nova superfície, e possibilita que a história se reconfigure, ficcionalizada e encenada através de fragmentos. Temos assim, que o olhar de Cozarinsky está sempre atento aos restos. Restos de imagens, restos de memórias. Desse modo, investigo essa espécie de sistema aberto, feito por Cozarinsky, em que as imagens de arquivo (resgate e repetição) são relacionadas à memória pessoal daqueles que presenciaram de algum modo o momento ilustrado nessas imagens. Cozarinsky cria planos e contraplanos em que a imagem resgatada (plano) se relaciona com a linguagem verbal (contraplano), dando voz às imagens e dando imagens às vozes.

Formulo a ideia de um funcionamento da voz como contraplano da imagem, pois é também através da voz que a história se faz sujeito nos filmes de Cozarinsky. O diretor busca uma espécie de verdade interior da história, verdade íntima que só pode ser contada a partir de uma experiência pessoal, de um testemunho subjetivo, e é a fala que potencializa a imagem, que insere nela uma alma. O trabalho de Cozarisnky arquiteta essa conexão entre a imagem e o sujeito, põe em cena a relação estreita entre a história e o sujeito da história.

Arquiteto também uma ligação entre os trabalhos de Cozarisnky e o conceito de ruína como fragmento de memória e história. Mas qual seria a relação do cinema com a ruína? Minha investigação se dá não apenas em relação ao discurso do filme, mas também em relação ao próprio meio. O meio é a máquina sem a qual o conteúdo não existiria, daí ser essencial entender seu funcionamento.

Desenvolvo, por exemplo, uma analogia entre a ideia da ruína como ausência e o plano cinematográfico. Afinal, o que é o plano senão a ausência de tudo o que poderia ter sido enquadrado, mas que foi deixado de lado? O corte fragmenta a realidade. O que sobra no plano além do que ele nos dá a ver é tudo aquilo que dele se excluiu e que por consequência só podemos imaginar, assim, o extracampo se torna uma potência do ausente. As bordas do plano nos dão o limite, ali se faz o corte, ali a imagem se faz fragmento de mundo, ali se encontra a linha onde está concentrada toda a ausência, assim como as bordas dos fragmentos de uma ruína. O que não se vê e o que foi excluído se tornam um espaço discursivo, ou seja, a ausência provoca o olhar e seu espaço, ou melhor, o seu “não espaço” se torna manifesto. Perante as bordas de uma ruína, assim como perante as bordas de um enquadramento criamos uma ficção, imaginamos o que poderia ter estado ali, mas não está.

Certamente um pensamento desse tipo, parece um tanto abstrato, afinal, com as imagens em movimento, teríamos tempo para pensar nas bordas do enquadramento? Dependeria de o filme abrir essa brecha. Os tempos mortos, por exemplo, nos proporcionam isso. No entanto, essa leitura se dá em nível mais conceitual do que prático, uma metáfora. Uma visão para além da imagem.

Tenho assim, que Cozarinsky, parte de uma necessidade de resgatar, imprimir e conservar a memória. Memória de um espaço e de um tempo vividos por ele, mas também vividos por outros e reconfigurados por ele. Espaço-tempo real e imaginado, que ficcionaliza a realidade e dá uma qualidade de real à ficção.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. Magia e técnica, arte e política. Obras escolhidas vol. 2. Trad. Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense,1994.



BUCK-MORSS, Susan. Dialética do olhar: Walter Benjamin e o projeto das passagens. Trad. Ana Luiza Andrade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.



BURUCUA, José Emilio. História, arte, cultura: de Aby Warburg a Carlo Ginzburg. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2007.



DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. Trad. Estella Senra. São Paulo: Editora Brasiliense S.A. 1985.



DERRIDA, Jaques. Mal de arquivo. Uma impressão Freudiana. Trad. Claudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.



NANCY, jean-luc. El sentido del mundo. Trad. Jorge Manuel Casas. Buenos Aires: La marca editora, 2003.



ZAMBRANO, María. Uma metáfora da esperança: as ruínas. Trad. Rodrigo Lopes de Barros Oliveira. Sopro – panfleto político e cultural – n.37 – www.culturaebarbarie.org/sopro. Florianópolis, outubro de 2010.