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  Título
A correspondência audiovisual entre Jonas Mekas e José Luis Guerín
Autor
Fabiano Grendene de Souza
Resumo Expandido
Em 2006, o Centre de Cultura Contemporània de Barcelona apresentou a exposição Erice-Kiarostami: correspondences. Para esta mostra, Abbas Kiarostami e Víctor Erice realizaram uma troca de cartas audiovisuais. Posteriormente, a instituição espanhola propôs a outros dez cineastas, que, em dupla, participassem do mesmo processo. Os pares foram: James Rosales e Wang Bing; Albert Serra e Lisandro Alonso; Fernando Eimbcke e So Yong Kim; Naomi Kawase e Isaki Lacuesta; e Jonas Mekas e José Luis Guerín. Tais experiências vêm suscitando algumas questões atinentes ao cinema contemporâneo. Primeiramente, essas obras realizadas por cineastas propõem um diálogo intenso com o campo das artes visuais, a começar pela exibição, programada primeiramente para salas de museus. Desta forma, o “filme-carta” está em consonância com o chamado “cinema de exposição” (DUBOIS, 2004), ratificando a vocação de um certo cinema contemporâneo em afastar-se da distribuição tradicional.

Ao mesmo tempo, esse conjunto de experiências dá pistas sobre as possibilidades expressivas da correspondência audiovisual. Como muitos destes “filmes-carta” mostram os realizadores refletindo sobre cinema e contando um pouco das suas experiências pessoais, pode-se pensar que nestes casos existe uma aproximação com outras formas de expressão da subjetividade, como a do documentário performático (NICHOLS, 2005). Mas é relevante lembrar que por vezes um diretor é visto respondendo diretamente ao outro. Assim, a soma das respostas cria uma narrativa calcada na troca de impressões artísticas, evocando a tradição epistolar, principalmente aquela que concerne à alternância de missivas entre criadores. Então, tanto lá como cá, podemos perceber um diálogo entre universos artísticos, muitas vezes similares.

Sem esquecer que a problemática da carta audiovisual tem sua recorrência (BELLOUR, 1997), esse trabalho procura dar conta de certas características que aparecem na correspondência entre Jonas Mekas e José Luis Guerín, concentrando a análise na primeira carta de cada um. Em sua missiva inicial, o cineasta espanhol lembra uma afirmação de Mekas: “o cinema é uma reação à vida”. Então, é possível questionar: como Guerín reage à vida? O que Mekas pensa sobre essa citação?

Em termos gerais, Guerín – filmando em Paris - encarna o viajante, contando um pouco da sua experiência de permanecer distante de casa por muito tempo, indo de um festival a outro. Guerín constrói a sensação de um estrangeiro que escreve de terras distantes, filmando meios de transporte (avião, metrô), não-lugares (estação de trem), e usando reiteradamente tomadas que mostram sua própria sombra. Os planos geralmente são curtos, muitas vezes montados em fusão.

Mekas, ao contrário, filma seu cotidiano através de planos longos. Se ele começa afirmando que o cinema “é e não é uma reação à vida”, essa dicotomia é representada pela oscilação entre imagens internas e externas. Nas cenas de rua, Nova York aparece assolada por uma nevasca. Já dentro dos ambientes, o que se vê é uma alegria afetiva, que contrasta com as imagens existenciais de Guerín. Quando filma seus assistentes dançando, Mekas elabora uma pequena ode à vida, a partir do ritmo inebriante dos corpos. Dentro da radiografia de um cotidiano permanentemente reinventado, há espaço para Mekas filmar a si próprio e também para alguém filmá-lo. Ou seja, enquanto Guerín oferece sua sombra, o diretor mais experiente não só mostra o rosto, como delega a câmera à outra pessoa, sem que se perca o tom de diário filmado.

Ao mesmo tempo, percebe-se uma sintonia entre os criadores, não só pelo comprometimento de ambos com o cinema pessoal, mas também através de dois procedimentos distintos que aparecem nas cartas: a maneira como eles usam a palavra escrita e a forma carinhosa como filmam animais. A partir da análise de quatro cenas curtas que mostram estes motivos, procuraremos traçar os pontos de aproximação e distanciamento desses dois cineastas.

Bibliografia

ANGELIDES, Sophia. Carta e literatura: correspondência entre Tchékhov e Gorki. São Paulo: EDUSP, 2001.



BALLÓ, Jordi. Correspondences: news of a process. In: Erice-Kiarostami: correspondences. Barcelona, Madri: Actar, La Casa Encenida, 2006. p. 74-85.



BELLOUR, Raymond. Entre-imagens. Campinas: Papirus, 1997.



BERGALA, Alain. Erice-Kiarostami: the pathways of creation. In: Erice-Kiarostami: correspondences. Barcelona, Madri: Actar, La Casa Encenida, 2006. p. 10-21.



DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.



GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas: Papirus, 2011.



LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: De Rosseau à internet. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2005.



RENOV, Michael. Investigando o sujeito: uma introdução. In: MOURÃO, Maria Dora. LABAKI, Amir (orgs.). O cinema do real. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 234-257.