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  Título
Espectador, documento e política na obra de Sophie Calle
Autor
Laila Melchior Pimentel Francisco
Resumo Expandido
Este trabalho parte do panorama atual das artes tendo, como questão fundamental, a maneira como o trabalho de Sophie Calle opera a crença em relação à verdade das imagens. Inserindo-se, assim, em uma reflexão que tenta entender a imagem como elemento complexo com camadas diversas de tempos e sentidos. A dimensão de ficcionalidade desses processos de documentação fotográfica contribui para um devir criativo do espectador.

A obra de Calle dá partida a uma reflexão sobre os gestos de subjetividade, ensaio e encenação na produção contemporânea, assim como sobre as possibilidades dos indivíduos de expressar-se hoje. Inauguradas no âmbito da arte, tais possibilidades incorporam-se nas práticas cotidianas e ressoam na partilha do comum. Recorrendo a fotografias acompanhadas de textos dispostos em instalações e publicados posteriormente em livros, suas obras aparecem investidas de muita polêmica. O trabalho de Calle constitui um campo profícuo de investigação: situa-se numa zona de indiscernibilidade entre o documentário (como registro do real) e a ficção.

Nesse sentido, tratar os documentos fora da lógica de índex é o aspecto essencial. Numa sociedade marcada pela produção e seleção permanentes de imagens, os lugares do documento e da ficção aparecem como questão central para um entendimento profundo do contemporâneo. Calle dispõe arquivos ficcionais para serem investigados, demandados, montados e remontados pelo espectador. Relativizar o estatuto da verdade que vem junto com as imagens, suas legendas e interpretações significa construir linhas de fuga nas maneiras de ser disponíveis à comunidade.

Assim, o trabalho discute o documentário como gênero que invade e afilia diferentes estéticas, infiltrando-se em múltiplos domínios da arte; questiona o estatuto tradicional do real e da ficção, observando maneiras da constituição documentária como campo de práticas variadas; aponta para a inscrição da subjetivação em uma nova lógica que se dá a partir de um desvio em relação à estética da confissão (própria da maneira de subjetivação moderna e intimamente ligada às formas documentárias) para uma outra, a da constatação, dando lugar à construção de mecanismos que permitiriam uma exposição de si construída em novas bases.

Subvertendo a ideia de documentação, documento, verdade e ficção na narrativa, Calle aproxima-se das ideias da “Nova História” e contribui para a ideia de que contar “uma história” não é diferente de contar “a história”. A distinção desses conceitos não faz sentido. Há lugar para a construção do novo, operando-se arte ao mesmo tempo que política.

Estaria hoje mais borrada do que nunca a linha dos específicos de cada prática artística, movimento que autorizaria formas contemporâneas híbridas e complexas. A forma de cinema tal qual conhecemos, por exemplo, reifica maneiras específicas de se relacionar com o mundo, de um espectador imóvel, parte do coletivo da plateia, concentrado no filme em detrimento da participação do corpo, marcado pela passividade e impotência diante daquilo que lhe é apresentado.

No horizonte de variedade dos dispositivos contemporâneos podemos ressaltar a importância de propostas como as das instalações e investidas de Calle, que põem em jogo novas formas narrativas ao mesmo tempo em que atribuem novas funções e lugares ao espectador: tanto no momento de confrontação com o trabalho artístico quanto depois, no curso de sua vida normal, em que agora é, já, um espectador emancipado, figura com novas dimensões políticas. Além disso, sua obra permite repensar o posicionamento clássico em relação aos documentos e construir novas maneiras de interpretar a tradição documentária, percebida como recorte do sensível, abrindo possibilidades diversas como, por exemplo, de que as imagens fotográficas de cunho detetivesco sejam vistas a partir do pressuposto da ficcionalidade: nem autoficção nem fotonovela; cruzamento inédito entre narrativas factuais com tendência ficcional.
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