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  Título
Entre encenações e manipulações: ressignificações da imagem no cinema de periferia
Autor
Gustavo Souza
Resumo Expandido
A produção audiovisual que emergiu nas periferias brasileiras na última década apresenta hoje uma diversidade de temas, narrativas e materiais audiovisuais, capazes de produzir variados pontos de vista sobre uma determinada questão. Ainda assim, essa diversidade é revertida, na maioria dos casos, na construção de filmes ancorados numa impressão de realidade verossímil ou “um tipo de abordagem mais naturalista”, conforme detecta Alvarenga (2004, p.104), “em que o vídeo é usado para mostrar o retrato de uma determinada comunidade, seus personagens, grupos, iniciativas, problemas e soluções”. Na contramão dessa tendência, há, também no cinema de periferia, um conjunto de filmes que se apropria de imagens e sons para provocar a reflexão sobre seus usos e possíveis desdobramentos estéticos e conceituais. Quem fornece os subsídios para esse debate são os documentários Defina-se (Kinoforum, 2002) e Poeira (Nerama, 2007). Para elaborar sua crítica à situação de exclusão por qual passa o negro na sociedade brasileira, Defina-se lança mão de uma série de recursos: encenações, materiais jornalísticos, imagens de arquivo, publicidade veiculada em revistas semanais, entrevistas e música (rap, cantos negros). Indo de encontro à ideia do documentário como resultado de registros capturados unicamente in loco, o documentário propõe uma discussão sobre o desenrolar da história brasileira, especialmente em relação à questão negra. Para isso, o papel das encenações e materiais de arquivo é vital. Já Poeira utiliza apenas uma imagem como suporte para um documentário que retrata o conflito entre garimpeiros e policiais em Serra Pelada, no estado do Pará. Essa opção sinaliza para um empreendimento estético em seu ponto de partida, que dá outra dimensão à fotografia, deslocando-a de uma representação linear e transparente para um universo descontínuo e fragmentado, além de ativar o debate sobre a dimensão política de uma imagem quando manipulada. Assim, nesta comunicação pretendemos, por meio da análise desses dois filmes, verificar em que medida a produção audiovisual periférica se conecta com as tendências contemporâneas do documentário, especialmente quando subverte uma estética já conhecida para assim reativar a discussão sobre a história e a política.
Bibliografia

ALVARENGA, Clarisse. Vídeo e experimentação social: um estudo sobre o vídeo comunitário contemporâneo no Brasil. Dissertação de Mestrado. Campinas: Instituto de Artes/UNICAMP, 2004.

FRANÇA, Andréa. A reencenação no cinema documentário. MATRIZes. São Paulo, ano 4, nº 1, jul/dez de 2010, p.149-161.

MACHADO, Arlindo. Máquina e imaginário. O desafio das poéticas tecnológicas.São Paulo: Edusp, 1993.

NINEY, François. Le documentaire et seux faux semblant. Paris: Klincksieck, 2009.

VAUGHAN, Dai. For documentary: twelve essays. Berkeley: University California Press, 1999.