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  Título
Telenovela contemporânea: entre remediações e redes narrativas
Autor
Mariane Harumi Murakami
Resumo Expandido
O processo de modernização da telenovela brasileira não transformou apenas o seu modo de fazer; transformou principalmente a experiência do espectador diante desse produto audiovisual. Historicamente, ela passa de uma experiência ficcional baseada em um mundo fantasioso para outra que pretende parecer cada vez mais realista, em que os elementos da trama apontam para o cotidiano. Na era da convergência, o espectador não abandona a narrativa televisiva, mas pode buscar (ou não) em outras mídias conteúdos para enriquecer a sua experiência ficcional.

Assim, faz-se necessário um estudo histórico desse gênero que o analise e o interprete a partir daquilo que lhe é específico como discurso audiovisual, e não apenas o reduza à função de reprodução de um pensamento antecedente e independente (Hamburger, 2011), o que tornaria irrelevante a compreensão dos seus mecanismos específicos como realização audiovisual para o estudo do pensamento social brasileiro (Kehl, 1986). É preciso tomá-lo fato de linguagem, um discurso produzido e controlado, de formas diferentes, por uma fonte produtora (Xavier, 2004).

De fato, é perceptível que, quanto à aplicação de metodologias de estudo histórico do gênero, poucas pesquisas atentam para a análise do discurso audiovisual, ou em termos de teorias de linguagem (Brandão, s.d.), da confluência entre a sua materialidade com processos sociais e culturais no contexto em que circulam. As pesquisas dessa natureza concentram-se no estudo histórico da telenovela com base em fontes secundárias (jornais, textos organizacionais, etc) (Anzuategui, 2010).

Portanto, o objetivo desse trabalho é investigar a narrativa teledramatúrgica contemporânea, a partir das discussões sobre narrativa ficcional desenvolvidas por Eco (2004) - que considera a narrativa como produto da relação entre um autor-modelo e um leitor-modelo que se constituem como estratégias discursivas - e Bordwell (1985) – que, tratando mais especificamente da ficção audiovisual, postula que a narração é o processo através do qual a trama (modo de representação da história) e o estilo (materialização do filme pela técnica) interagem, dando pistas e canalizando a construção da fábula (história representada) pelo espectador. Cremos que tal perspectiva possibilitará a análise do gênero considerando-o em sua totalidade discursiva (relações entre narrativa, técnica e contexto histórico, cultural e ideológico).

Isto posto, pressupomos que em seu processo de modernização, a linguagem da telenovela contemporânea acabou por remediar (Bolter e Grusin,1999) outras mídias, especialmente o cinema e as mídias digitais. Remediação é o processo em que um novo meio apropria-se de elementos de outros meios até configurar sua própria gramática. Esta transfiguração de linguagens não atinge apenas o novo meio, como também renova os antigos meios remediados.

No caso da telenovela, há o embrião da estrutura em rede (Hamburger, 2011) ao invés da linearidade da narrativa clássica, criando imprevisibilidade e possibilitando movimentos hipertextuais na narrativa (dentro e para além dela). Ademais, a remediação transforma a própria experiência da telenovela; segundo Oliveira (2005), o fluxo, tão presente no continuum das imagens da TV, "apresenta-nos agora uma nova continuidade: a das redes e dos circuitos, a dos conectados. O que interessa é o que se ganha com a velocidade da circulação constante de pessoas, veículos, informações". Para Martín-Barbero (1998), a TV e o computador transformam o cotidiano num território virtual desespacializado e submetido ao regime geral da velocidade. Essas transformações associadas à cultura tecnológica produzem uma nova experiência audiovisual, que na telenovela, é apresentada por meio de uma narrativa rizomática e dinâmica. Por fim, como objetos para tal reflexão, obras recentes da TV brasileira, em especial as tramas Fina Estampa (2011) e Avenida Brasil (2012), bastante emblemáticas desse processo de modernização.

Bibliografia

ANZUATEGUI, Sabina. História da telenovela brasileira: questões de método. Disponível em: http://www.casperlibero.edu.br/rep_arquivos/2010/03/23/1269387908.pdf . Acesso em: 05 abr. 2012.



BOLTER, J; GRUSIN, R. Remediation: understanding new media. Cambridge: MIT Press, 1999.



BORDWELL, David. Narration in the fiction film. Madison: The University of Wisconsin, 1985.



ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. 8. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

HAMBURGER, Esther Imperio. Telenovelas e interpretações do Brasil. Lua Nova, v. 82, p. 61-86, 2011.



KEHL, M. R. Eu vi um Brasil na TV. In: Um país no ar: história da TV brasileira em três canais. São Paulo: Brasiliense/Funarte, 1986.



MARTÍN-BARBERO, Jesús. Arte/comunicação/tecnicidade no final do século. In: Revista Margem. São Paulo: EDUC/FAPE, 1998.



OLIVEIRA, Rita de Cássia. Cibercultura, cultura audiovisual e sensorium juvenil. In: LEÃO, Lúcia. Caleidoscópio. Reflexões sobre as novas mídias. São Paulo: Senac, 2005.