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  Título
Cinema nos anos 1910: conexões entre exibição, distribuição e produção
Autor
alice dubina trusz
Resumo Expandido
Dada a necessidade de priorizar o aspecto relacional dos processos culturais, proponho partir do estudo da exibição cinematográfica em Porto Alegre entre 1908 e 1914 para examinar as relações entre os setores da exibição, distribuição e produção cinematográficas no Brasil no período. O objetivo é identificar algumas das características da dinâmica local no que respeita às conexões entre as empresas exibidoras e as distribuidoras nacionais, bem como às iniciativas voltadas para a produção, que visaram qualificar os programas e ampliar e fidelizar o público, de modo a fortalecer o setor exibidor como empresa comercial do ramo das diversões públicas.

Trata-se de salientar a importância do estudo da exibição cinematográfica para a compreensão da história da consolidação do cinema no Brasil como fenômeno cultural, ultrapassando a restrição histórica da nossa historiografia ao exame da produção e a abordagem estanque dos fenômenos.

A primeira fase da sedentarização da exibição cinematográfica no Brasil foi marcada por uma série de iniciativas, que visaram consolidar os cinemas como espaços legítimos de realização do espetáculo cinematográfico. Entre 1908-1914, a exibição, em sua nova configuração, orientada para a autonomização das projeções cinematográficas como atrações dos programas e para a racionalização da atividade exibidora como prática econômica, conheceu grande instabilidade, com salas abrindo e fechando ou trocando de proprietário e endereço.

A fim de contorná-la, procurou-se qualificar fisicamente os estabelecimentos e seus serviços: cinemas foram ampliados e reformados, ganhando melhores instalações elétricas e sistemas de ventilação, além de acomodações mais confortáveis e decoração atraente. Pequenas orquestras foram integradas aos cinemas desde 1908, observando-se também o crescimento do número de empregados e a crescente especialização do trabalho.

Os investimentos em publicidade impressa avolumaram-se, sobretudo em torno de 1912, quando foram ampliados os espaços ocupados pelos anúncios nos jornais diários. A publicidade dos cinemas também foi incrementada formalmente após o surgimento de periódicos ilustrados como a revista Kodak (1912-20), onde passaram a ser veiculadas fotografias (fotogravuras) dos públicos dos cinemas e anúncios ilustrados a partir destes mesmos materiais.

Simultaneamente, as empresas exibidoras procuraram estabelecer acordos comerciais com as principais distribuidoras nacionais, cuja expansão econômica provocava uma acirrada disputa de mercado, que acabou se refletindo no aumento da concorrência nos âmbitos regional (entre os representantes) e local (entre as salas). Tal aspecto concentra importância significativa, visto ter sido o período marcado pela crescente valorização dos programas e filmes como meio de distinção das salas e de atração do público. A transformação cultural foi simultânea e esteve relacionada à extensão da metragem dos filmes e a sua complexificação narrativa, o que contribui para explicar o empenho dos exibidores em proporcionar aos espectadores informações detalhadas sobre os filmes no momento anterior à projeção, seja por meio de grandes e descritivos anúncios publicados nos jornais, seja através da distribuição (ou venda) dos programas das sessões na bilheteria dos cinemas.Por outro lado, os exibidores também se voltaram para a produção e exibição de filmes sobre a sua realidade. Neste caso, buscaram integrar aos programas “documentários” encomendados por eles próprios ou particulares a cinegrafistas independentes, mas também empregaram cinegrafistas para a produção de cinejornais. Nesta comunicação, se procurará traçar um panorama da exibição no período, refletindo-se sobre os traços comuns e a especificidade histórica e cultural da experiência porto-alegrense em relação aos casos carioca e paulista, em particular, abordados sob a perspectiva do papel dos exibidores no estabelecimento de conexões entre o setor e os demais âmbitos do cinema no Brasil dos anos de 1910.
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