/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Urdiduras transnacionais – as múltiplas cartografias de Wong Kar-wai
Autor
Maurício de Medeiros Caleiro
Resumo Expandido
Fruto do emblemático transnacionalismo de Hong Kong – que se traduz numa múltipla herança colonial e numa posição geopolítica que se projeta para além do âmbito asiático -, o cinema de Wong Kar-wai tem como uma de suas características distintivas sua reinserção temática e estética em uma cartografia transnacional reformulada a cada novo título lançado.

Kar-wai, como poucos cineastas contemporâneos – Takashi Miike, Woody Allen - faz da globalização não só topo temático recorrente, mas, em termos operacionais, se vale dos recursos e possibilidades por ela oferecidos para efetivamente internacionalizar sua produção. Esta, por sua vez, insere-se, de forma destacada, como produto de ponta do “cinema internacional de arte”, num mercado reconfigurado pelas facilidades do digital e do cibernético, com profunda ressonância para os setores de produção e distribuição e para a multiplicação de nichos de valoração e comercialização.

O artigo em tela examina as reinscrições cartográficas promovidas pelo cinema de Wong Kar-wai a partir de sua atuação no particular panorama geopolítico de Honk Kong, seja abordando temática e esteticamente aspectos inovadores da globalização em Amores expressos ou referenciando a “imaginação nostálgica” (LEE, 2010) em relação à ex-colônia na ode aos amores reprimidos em In the mood for love; e, em clave renovada, na combinação de transnacionalismo e internacionalização da produção no sino-argentino Felizes juntos e no hollywoodiano My blueberry nights.

Interessa-nos, em um segundo plano, a análise não apenas dos aspectos propriamente cartográficos de tal cinematografia, mas de suas múltiplas, específicas e detalhadas urdiduras, que se traduzem, metaforicamente, em séries de cartografias estético-temáticas. Destas, três aspectos serão destacados na análise: primeiramente, o tratamento que Kar-wai dispensa à questão temporal - tanto em relação às múltiplas formas de radiografar o presente, quanto ao passado iconizado de Days of being wild e de Amor à flor da pele e ao futuro melancólico de 2046 -, marca pessoal que levou Tony RAYNS a saudá-lo como “poeta do tempo” (1995, p. 12).

Em segundo lugar e em direta ligação com as funções que o tratamento do tempo tem para a conformação cartográfica, parece-nos necessário examinar o papel preponderante desempenhado pela escolha das músicas que compõem a trilha sonora – diegética ou não –, pelo momento em que são executadas nos filmes, e pela representatividade histórico-cultural que, para ficar em três dos mais significativos exemplos, Astor Piazzolla, Zhou Xuan e Nat King Cole agregam à representação.

Por fim, interessa-nos chamar a atenção para a centralidade do casting – notadamente do ator/atriz ou par de atores central – como traço distintivo do cinema de Kar-wai em relação à sua conformação cartográfica. Tal quesito é potencializado em suas produções através da convocação de nomes que trazem previamente, inerentes às suas personas públicas, uma simbologia em relação à posição que ocupam no panteão de estrelas chinesas e asiáticas e, em outra escala axiológica, de sua inserção numa economia cultural globalizada – como a a diva Maggie Cheung e Tony Leung Chiu Wai ilustram com propriedade. Um caso particular a ser examinado é o da escalação da estreante nas telas Norah Jones – a qual Kar-wai lutou de forma aguerrida para impor à produção - como estrela de My blueberry nights, o qual impregnou de elementos oriundos de sua múltipla origem étnica, profissional, estilística, num exemplo claro de como o diretor superexplora a simbologia associada aos astros de seu filme para tecer as urdiduras que compõem sua marca pessoal.

Bibliografia

BORDWELL, David. Planet Hong Kong: popular cinema and the art of entertainment. Cambridge/Londres: Harvard UP, 2000.



CHU, Yingchi. Hong Kong cinema: coloniser, motherland and self. Londres/Nova Iorque: Routledge, 2003.



IWABUCHI, Koichi. Recentering globalization: popular culture and tapanese Transnationalism. Durham: Duke UP, 2002.



LEE, Vivian P. Y. Honk Kong cinema since 1997 – the post-nostalgic imagination. Nova Iorque: Palgrave McMillan, 2010.



LO, Kwai-Cheung. Chinese face/off: the transnational popular culture of Hong Kong. Chicago/Hong Kong: University of Illinois Press/Hong Kong UP, 2005.



RAINS, Tony. Poet of time. vound and Vision, 5:9, Setembro 1995. pp. 12–16.



TEO, Stephen. Hong Kong cinema. Londres: British Film Institute, 1997.



ZHANG, Yingjin, Screening China: critical interventions, cinematic reconfigurations, and the transnational imaginary in the contemporary chinese cinema. Ann Arbor: University of Michigan Press: 2002.