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  Título
Vigor e delicadeza contra a ruína do cinema brasileiro
Autor
Roberta Veiga
Resumo Expandido
Não há dúvidas de que a afirmação de Eduardo Scorel - de que o cinema brasileiro viveria uma espécie de ruína – suscita múltiplos questionamentos acerca das forças que configuram nossa experiência cinematográfica. Tais questões abarcam das formas, e seus juízos estéticos, aos processos socioeconômicos que estruturam a produção e difusão dos filmes. Porém, uma reação curiosa a essa assertiva que, mais do que qualquer outra, tornou-se uma inquietação para nós, se origina no polo oposto a de um “arruinamento”. Isso quer dizer que quando a imagem de um cinema brasileiro em ruínas nos foi solicitada, imediatamente uma outra se formou: a de um cinema brasileiro honesto, intenso, e fecundo ao refletir sobre sua própria experiência. Um cinema, ao mesmo tempo, vigoroso e delicado.

Nessa imagem, os filmes surgem como luzinhas numa constelação e serpejam, não apenas através de cenas e personagens, mas de uma aura comum a eles. É essa aura que pretendemos investigar no intuito de entender em que sentido tal constelação se conforma em um fenômeno cinematográfico do nosso tempo que enfrenta as forças do “arruinamento”. Em que medida essa constelação representa um contrapoder àqueles que fazem o cinema sucumbir às imagens estereotipadas e o impede de reencontrar seu vinculo com o mundo? Em que medida ela resiste ao “tempo do consumo”, em prol do “tempo da experiência”, como quer Comolli, e oferece “justas imagens” em detrimento das imagens consensuais que legitimam a guerra crônica?

A falta que me faz, de Marília Rocha (2009); Terra deu terra come, de Rodrigo Siqueira (2010); Pancinema permanente, de Carlos Nader (2008); Serras da Desordem, de Andrea Tonacci (2006); Santiago, de João Moreira Salles (2006); Jogo de Cena (2007) e Moscou (2009), de Eduardo Coutinho; Avenida Brasília Formosa, de Rafael Mascaro (2010); Viajo porque preciso volto porque te amo, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes (2009); e O Céu sobre os ombros, de Sérgio Borges (2011)... Olhando esse conjunto de luzinhas serpejantes, partimos da premissa de que tal constelação está ligada a um gesto próprio ao documentário, senão ao gênero ele mesmo, à uma forma ensaística que coteja o ficcional e o documental, que opera na interseção. Numa atitude comparativa que contempla esses exemplos uns em relação aos outros, identificamos duas características que, uma vez detalhadas, irão definir a aura: os filmes possuem um vigor na constante tensão entre o real e o representado, entre o ser e o encenar, entre a realidade e a fabulação; e apostam na delicadeza da vida ordinária, do comum, como espaço narrativo poroso, aberto às potencialidade etnográficas.

De que maneira essas características inscrevem os filmes em específico, e o cinema brasileiro em geral, num lugar estético-político e define um engajamento no presente sob a forma da resistência? Com o objetivo de responder nossa pergunta, propomos eleger cerca de quatro filmes e compará-los detidamente, não apenas entre eles, mas em pares nos quais um da dupla será um filme de fora - aquele que por algum motivo não tremeluziu nessa constelação. Pensamos inicialmente na comparação de: (1) o vigor em Pancinema e Vida (2008), de Paula Gaitán, (2) a delicadeza em A falta que me faz e Meninas (2006), de Sandra Werneck; e (3) ainda ambas características em Viajo porque preciso... e O céu sob os ombros.

Tanto em Pancinema quanto em Vida o vigor da tensão entre o real e o encenado escancara a fraqueza, a impossibilidade do aparato em capturar uma vida, porém por vias diferentes. Por ora, antecipamos que nossa hipótese é de que em Pancinema o aparato se reduz, se acanha para que Waly Salomão surja em toda sua extensão, enorme. Já em Vida, o dispositivo parece prometer muito, exibir um poder maior daquele que filma e, por isso, a personagem surge pequena, titubeante. Por fim, vale ressaltar, que no movimento comparativo, os outros filmes serão convidados a dialogar, porém o número de comparações dependerá do fôlego do artigo.
Bibliografia

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