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  Título
Sob um exotismo cinematográfico – contradições herdadas em chave atual
Autor
Mauro Luciano Souza de Araújo
Resumo Expandido
Inserido no gênero da comédia, o exotismo de grande parte de uma singularidade da cultura brasileira obteve sua composição ainda nos filmes musicais carnavalescos, as chanchadas, dos estúdios da Cinédia e Atlântida. Fica para a história o grande legado posterior que este contexto produziu sob o nome de Carmem Miranda cantando The lady in the tutti frutti hat, na longa sequência de The gang’s all here (Busby Berkeley, 1943), onde a mesma sustenta a postura de estrangeira festiva. O que houvesse de distinto no universo simbólico do imaginário ocidente, adornado em contornos de um primitivismo animado e brilhante, ganhava tonalidade caricatural.

A postos do chamado cinema moderno, o Cinema Novo, em suas fases distintas de a) diálogo com o público europeu e logo após de b) sua pesquisa popular de público, também pôs elementos do próprio estrangeirismo ao território nacional brasileiro – dando a Glauber Rocha, numa exceção, o exótico como instrumento de ruptura. Em outros termos – à parte das etapas históricas que se contradizem, há uma persistência em jogo. Um dos elementos deste discurso se identifica na reelaboração simétrica da etnografia proporcionada pela gravação, registro da realidade que dá insumos a estas argumentações.

O elemento exótico na cinematografia ultrapassou a história, compondo filmes documentários e de certa forma distanciados da “outra” cultura, como nos casos de Jean Manzon, ou da expedição de Marechal Rondon à floresta amazônica. Chega às teses do Cinema Novo, e em filmes que tematizavam o “Brasil grande”, evidenciando uma disputa pós-colonial na chave da alteridade e identidade nacional popular, e ganha uma vez mais as telas em temas de viagens dentro do grande território em exploração.

O que pouco se conhece, o visto como estranho, ganha o status do valor primitivo e exótico, denominação comum vista nas primeiras comitivas de cineastas através do mundo não ocidental (LEPROHON, 1945, 164), assistidas em imagens arquivadas atualmente. Desta maneira foi apresentado algo da temporalidade e das expressões de povos distintos: tribos e comunidades. Assimilando o poder de público que tal temática possui, com a surpresa, a curiosidade, a contemplação da diferença, variados matizes são tonificados até chegarmos à crítica humanística de, por exemplo, Andrea Tonacci, em Serras da desordem, quando vemos a identificação direta entre público e protagonista indígena – tentando extinguir a força da curiosidade ao exotismo ingênua anteriormente explorada midiaticamente (surgida através do cinema), partindo para um questionamento do chamar de “outro”, ou “diferente” a cultura distanciada, ainda que próxima do imaginário local. Corumbiara levanta o debate político de eras autóctones, anteriores ao diálogo colonial, retirando de um passado longínquo a questão da geografia rural de apropriação indevida de terras. De maneira semelhante, ainda que menos autorreflexivo, Cao Hamburger propõe um tipo de engajamento no cinema comerciável, com Xingu, ao dizer que os temas brasileiros devem ser vendidos ao mundo – tal como se vê em Brincando nos campos do senhor (Hector Babenco, 1991).

Distanciamentos foram por muito tempo alicerces de uma injeção de novas percepções para o cinema engajado, denominados radicais. Longe dessa fórmula, hoje, as narrativas que usam do exotismo também comprometem a interpelação anterior do cinema chamado moderno – o realismo (RANCIÈRE, 2010) atual assume o tom representacional, acompanhado pelas linhas normativas da comunicação com o grande público ampliado ao exterior, dando a verossimilhança e didatismo necessário ao que pode parecer componente da grande esfera do “diferente”. Na chave da política contemporânea global, não só o considerado primitivo e pitoresco, mas o atrasado, o passado, o marginal, o periférico, o perigoso assumem o termo exótico do anterior estrangeiro, abrangendo boa parte da cultura descontextualizada de compreensão em uma civilização midiática.

Bibliografia

CAETANO, Daniel (org). Serras da desordem. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2008.



COMOLLI, Jean-Louis. Aqueles que (se) perdem. In. Ver e poder - a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: ed. UFMG, 2008. pp. 269-282.



COMPAGNON, Antoine. Exaustão – Pós-modernismo e Palinódia. In. Os cinco paradoxos da modernidade. Belo Horizonte: UFMG, 2010. pp. 107-133.



CUBITT, Sean. The cinema effect. Cambridge and London: The MIT Press, 2004.



HUBERMAN, Georges Didi. A dupla distância. In. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Ed. 34, 2010. pp. 147-168.



LEPROHON, Pierre. L’exotisme et le cinema. Paris: J. Suisse, 1945.



NICHOLS, Bill. Engaging Cinema – an introduction to film studies. New York: W.W. Norton & Company, 2010.



RANCIÈRE, Jacques. O efeito de realidade e a política de ficção. Novos Estudos Cebrap, 86, março 2010. pp. 75-90.