/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
O que pode o drama? Notas sobre a Brasília de A cidade é uma só?
Autor
Cláudia Cardoso Mesquita
Resumo Expandido
Para melhor identificar características de A cidade é uma só? (2011), propomos o exercício de cotejo com filmes anteriores, a partir de um recorte temático: obras que abordam Brasília e sua história, suas mazelas, a partilha desigual do espaço e das oportunidades - particularmente, Conterrâneos velhos de guerra (Vladimir Carvalho, 1991), que também tematiza a história da Ceilândia.

Em seu "Teoria do Drama Moderno", Peter Szondi trabalha a “crise do drama” a partir da introdução de procedimentos épicos (entre outros), por vezes “sorrateiros”, nas peças de grandes dramaturgos do século XIX. Uma das necessidades a que o “épico” vem responder é à emergência de novas temáticas e subjetividades; por exemplo, à “renúncia ao presente” e à tematização do passado (já que no drama o tempo é “uma sequência absoluta de presentes”) e ao desejo de exprimir afastamento crítico das condições de vida representadas (pois os personagens do drama seriam “projeções do sujeito histórico”). O épico emerge, assim, para pôr em cena a distância, o "pôr-se frente às criaturas", recolocando a relação sujeito-objeto que é negada na forma dramática.

Se os documentários anteriores sobre Brasília trabalham procedimentos épicos, de modo a se valerem do distanciamento crítico de quem "põe-se frente às" experiências dos sujeitos retratados, comentando-as (multiplicam-se as figuras “mediadoras” que, mesmo que solidárias com os pobres, com eles não se confundem, sendo essa separação a condição crítica do discurso), A cidade é uma só? faz movimento inverso: introduz procedimentos dramáticos que tornam o cineasta também personagem, e aproximam a enunciação das táticas cotidianas e singulares como cada um dos três protagonistas vivenciam a(s) cidade(s).

Conterrâneos Velhos de Guerra poderia ser aproximado do relato “épico”, inclusive porque sumariza anos de história e de realização, trazendo em seu bojo muitas variações (formais) e muitas citações (de arquivos). Entre o espectador e as situações e problemas apresentados, multiplicam-se mediações - quem se distancia ou “põe-se à frente”, presume o "épico", pode ver melhor o conjunto, estabelecer contrastes e relações (entre diferentes realidades e matérias heterogêneas).

Em A cidade é uma só?, diferentemente, há uma antecedência da cena dramática sobre a aparição da equipe mediadora (apresentada como responsável pelo filme, em cena, minutos depois). Estamos no filme antes do “filme”: ele começa apresentando diretamente as vidas daqueles que serão pelo “filme” abordadas - Zé Antonio em ação, buscando terrenos para especular; Dildu e amigos em volta da fogueira, conversando e cantando velhos raps; Nancy em um estúdio de rádio, gravando uma participação. Segundo Szondi, a forma dramática não conhece nada fora de si: o drama não é "a exposição (secundária) de algo (primário), mas põe a si próprio em cena, é em sua própria encenação” (2011: 26).

Mas A cidade é uma só? não é estritamente, nem é convencionalmente, dramático. A montagem, que trabalha com arquivos e embaralha intensamente as perspectivas dos três protagonistas, sugere mediação, pondo-se “além” do drama. Na montagem paralela, entrelaçam-se as perspectivas de Dildu, Zé Antonio e Nancy, e são produzidos ou reforçados sentidos a partir de construções temáticas que tal entrelaçamento permite. Mas, diferentemente dos procedimentos épicos mobilizados nos outros filmes, a discreta mediação não avança interpretações que ultrapassem expressivamente a consciência histórica dos personagens, aquilo sobre si mesmos que eles sabem e enunciam.

O "papel" do diretor de cinema, ora dentro, ora fora do drama, merecerá atenção particular. Adirley aparece como personagem da cena dramática (diretor do filme "diegético", apresentado aos protagonistas, a quem supostamente não conhece), mas é também diretor do filme que vemos, mediando nossa relação com as falas de Nancy em entrevista, investigando os dados históricos que serão pelo filme revelados.
Bibliografia

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da História. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. 1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

SZONDI, Peter. Teoria do drama moderno. São Paulo: Cosac Naify, 2011.