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  Título
O rei está nu - intimidade e crise masculina em A married couple
Autor
Fernando Weller
Resumo Expandido
Os anos 60 produziram no campo do cinema documentário profundas transformações de ordem tecnológica e estética. A emergência do chamado Cinema Direto, ou Cinema Verdade, em países como França, EUA e Canadá acompanhou um processo de ressignificação do papel social do documentarista que, pouco a pouco, abandonou o lugar de “púlpito” (GRIERSON, 1966) ocupado pelo documentário clássico e aproximou-se da suposta experiência vivida, do cotidiano da vida doméstica, do trabalho, do lazer, do universo, enfim, da intimidade. Se, no documentário de inspiração griersoniana, o documentarista ocupava o lugar do profissional da imagem e do som, o que se reflete no emprego majoritário do formato 35mm (WINSTON, 1996; ZIMMERMANN, 1995), com a massificação do 16mm, as posições amadora e profissional entraram em colapso, bem como os discursos dirigidos ao universo público ou privado que lhe são derivados. O documentário narra, desde então, a partir do âmbito amador e privado, tornando assim públicas as experiências e conflitos da geração nascida no pós-guerra.

O filme A married couple (1969), dirigido pelo cineasta canadense Allan King representa, simultaneamente, o acabamento de um processo de intensificação da exploração da intimidade do documentário, emergido no início da década com Primárias (1960), de Drew e Leacock, e o princípio de uma nova abordagem. Essa nova abordagem, particularmente da vida doméstica, ganhou o nome de reality show em sua leitura televisiva e teve como marco a série An american family (1973), produzida por Craig Gilbert, sob influência explícita do filme de King (DRUICK, 2010).

A married couple reflete, ainda, o conjunto de mudanças ocorridas na década que envolve a crise do modelo tradicional de família e, ao mesmo tempo da sua representação através do documentário, que via a família sob a perspectiva institucional. Desde Housing problems (1935), de Elton e Anstey, a Primárias, a família é representada como uma unidade sólida e estável. O casal Kennedy, por exemplo, é abordado por Drew com suas faces dispostas uma ao lado da outra, com a montagem simétrica de suas mãos durante os discursos e seus olhares dirigidos para a mesma direção, para o público. Jacqueline é um complemento do novo personagem carismático, parte de sua essência intimista e legitimadora do discurso político. No fim da década, o filme de King expõe a ruptura dessa pretensa unidade e publiciza a crise de identidade de gêneros vivida pelos personagens, utilizando-se dos recursos do cinema observacional defendidos por Drew, embora nunca empregados por ele com a mesma radicalidade. Billy e Antoinette estão, quase sempre, em campos opostos da imagem, divergindo em seus diálogos e na disposição de seus corpos no cenário do lar.

A presente comunicação pretende, assim, analisar os procedimentos estéticos do cinema observacional de King no filme em questão, como estratégias de desvelamento da crise, fundamentalmente masculina, vivida pelo personagem Billy Edwards em seu conflito doméstico.

Bibliografia

DRUICK, Zoe. Allan king's a married couple. Toronto: University of Toronto Press, 2010.



FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. Vol I. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1977.



GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade. Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Ed. Unesp, 1992.



GRIERSON, John. Grierson on documentary. London: Faber, 1966.



NOWELL-SMITH, Geoffrey. Making waves: new cinemas of the 1960s. Nova Iorque: Continuum, 2008.



WAUGH, Thomas. The right to play oneself: looking back on documentary film. Minneapolis: University os Minessota Press, 2011.



WINSTON, Brian. Technologies of seeing. Photography, cinemathography and television. Londres: BFI, 1996.



ZIMMERMANN, Patricia R. Reel families. A social history of amateur film. Indianapolis: Indiana University Press, 1995.