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  Título
Performance e realismo afetivo no cinema brasileiro contemporâneo
Autor
Ramayana Lira de Sousa
Resumo Expandido
O que se convencionou chamar de "Novíssimo Cinema Brasileiro", ou seja a produção de jovens realizadores nos últimos 5, 6 anos, oferece um produtivo desafio ao pensamento, na medida em que suas obras parecem apontar para uma política da pós-identidade, que demanda a (re)construção de um vocabulário crítico que dê conta dessa produção. Uma das mais proeminentes marcas desse cinema é o questionamento do status da imagem cinematográfica, que vacila entre a ficção e o documentário sem apresentar um ponto de resolução. Tal vacilo pode ser entendido em termos da natureza performativa de filmes como Os monstros, Brasília Formosa e O céu sobre os ombros. Tais filmes se organizam ao redor de “improvisações”, performances livres que abrem a imagem ao “real”, uma abertura que parece estar em conflito com as qualidades formais de cada obra (enquadramentos elaborados, edição, fotografia). Esses filmes produzem um espaço entre ficção e documentário, realidade e artifício que se mostra politicamente produtivo. Neles, pessoas representam ora a si mesmas, ora constroem narrativas não verídicas, ora se colocam no abismo que se abre diante do “risco do real”, sem que nos sejam dadas pistas para deduzir o verdadeiro e o falso, pois as performances dadas produzem afetos, devires e não imitações, indo ao encontro do que afirma Elena del Río, “in its fundamental ontological sense, performance gives rise to the real. While representation is mimetic, performance is creative and ontogenetic. In representation, repetition gives birth to the same; in performance, each repetition enacts its own unique event.” (2008, p.4)

O trabalho da imagem cinematográfica nesses filmes está intimamente relacionado a uma política dos afetos que demanda repensar o “realismo” cinematográfico. Não mais um referente a uma “verdade sociológica” sobre a sociedade brasileira, o realismo é tomado como algo que a imagem faz, isto é, como um afeto que desafia a capacidade de resposta do espectador. Partimos das teorias de Baruch de Spinoza, Henri Bergson, Gilles Deleuze, Marco Abel e Steven Shaviro e propomos avaliar a relevância política da noção de realismo que, quando pensado junto ao afeto, torna-se categoria cada vez mais aberta, vertiginosa, uma força centrífuga que faz girar ao seu redor sujeitos e objetos, o real e o imaginado, de modo que o “conhecível” do real se torna tão importante quanto o desconhecido que nele habita.
Bibliografia

ABEL, Marco. Violent affect: literature, cinema, and critique after representation. Lincoln: University of Nebraska Press, 2007.

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

CLOUGH, Patricia Ticineto. The affective turn: theorizing the social. Durham e Londres: Duke University Press, 2007.

COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2010.

DELEUZE, Gilles. imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. Belo Hoizonte: UFMG, 2011.

MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no Real: o documentário brasileiro hoje. Rio de Janeiro: Azougue. 2010.

RANCIÈRE, Jacques. The emancipated spectator. Londres e Nova York: Verso, 2009.

del RÍO, Elena. Deleuze and the cinemas of performance: powers of affection. Edinburgh: Edinburgh UP, 2008.

SHAVIRO, Steven. The Cinematic Body. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

SPINOZA, Benedictus de. Spinoza: Complete Works. Indianapolis, Indiana e Cambridge: Ha.