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  Título
Por uma estética da espontaneidade: relações de cocriação entre ator e direção
Autor
walmeri Kellen Ribeiro
Resumo Expandido
Fruto de uma proposta estética que valoriza mais a presença do que a representação, instaurando uma ideia de espontaneidade, associada ao tempo presente, os processos criativos que trazem o ator como cocriador, almejam que este contribua para o desenvolvimento da obra, propondo assim um rompimento com a ideia de interpretação ou representação de uma personagem e de um contexto já dado, em busca de uma criação que é fundamentada na singularidade do ator, na atuação e numa dramaturgia que emerge da ação.

Ao nos referirmos, no entanto, a uma "estética da espontaneidade”, falamos de uma impressão de espontaneidade, pois, esta é sempre construída, numa ação de trazer algo á tona, não só na relação ator-câmera e ator-direção, em ensaios ou no ato da filmagem, mas num trabalho que visa uma experiência investigativa pautada em uma dramaturgia do corpo.

No cinema, o qual abordaremos nesta comunicação, o ator atua em cena, performa. Não se trata de uma ação que se inscreve nos corpos, mas sim de um corpo que propõe uma ação e, que no ato das filmagens, busca por uma plenitude em cena.

Deste ponto de vista abrimos um diálogo estreito com os estudos da Performance, tomando-os como o grande lócus de discussão teórica da criação cinematográfica contemporânea, sobretudo da brasileira. Pois, não falamos de um cinema que busca por uma estética realista, mas sim por uma estética da espontaneidade, que como diz Zumthor (2007) “... ultrapassa o curso comum dos acontecimentos”.

Esta estética, de forma complementar, está ligada a fluidez do processo criativo do ator e à leveza da ação. Construir essa ideia de tempo presente, do aqui e agora da ação, fazendo com que isso se torne tão presente, que esteja impresso na obra, requer uma grande articulação em torno da fugacidade dos corpos, dos afetos e da intensidade, bem como da fluidez dos processos criativos atorais, de sua complexidade e singularidade. Pois, por mais rápido que as pequenas ações e relações aconteçam, foi esse o momento no qual elas foram construídas e não um outro.

Essa percepção do tempo, da fluidez do processo criativo, onde esses corpos dinâmicos estão imbricados de forma vital, em busca da extrojeção (Cohen, 2007) colabora para a construção desta estética marcada pela intensidade e pela sutileza, à medida que estas estão contidas na leveza. Uma leveza que segundo Denílson Lopes (2007) se apresenta como um destino, uma procura, e não um conceito rigoroso.

Para discutir as questões e tensões acima pontuadas, com o objetivo de colocar em pauta o que venho nomeando como “estética da espontaneidade”, proponho a reflexão sobre o processo de criação dos filmes Material Bruto e Convite para Jantar com o Camarada Stalin de Ricardo Alves Jr e Girimunho de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr.
Bibliografia

BONFITTO, Matteo. A cinética do invisível. São Paulo: Perspectiva, 2009.

BURNIER, Luis Otávio. A arte de ator: da técnica à representação. Campinas: Ed. UNICAMP, 2001.

COHEN, Renato. Performance como linguagem. São Paulo: Perspectiva, 2007.

FISCHER-LICHTE, Erika. The Transformative power of Performance: a new aesthetics. London: Routledge, 2008.

LOPES, Denilson. A delicadeza: estética, experiência e paisagens. Brasília: UNB, 2007.

RIBEIRO, Walmeri. Poéticas do Ator no Audiovisual. (Tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP), São Paulo, 2010.

SALLES, Cecília Almeida. Redes da criação: construção da obra de arte. São Paulo: Horizonte, 2006.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. São Paulo: CosacNaify, 2007.