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  Título
Os limites da recepção: censura e leitura fílmica
Autor
mahomed bamba
Resumo Expandido
Em seu Dictionnaire de la censure au cinéma (2001), Jean-Luc Douin define a censura como algo de multiforme que pode provir tanto “de cima” como “de baixo” da sociedade; ela “mutila, corta (uma frase, uma cena), proíbe, age antes da filmagem (pela leitura prévia do roteiro), durante ou depois; seqüestra, queima os negativos” etc. Este poder ilimitado da censura sobre a criação e a recepção artísticas faz com que seu estudo ajude, de um lado, a entender melhor as relações de uma sociedade com seus próprios interditos e níveis de tolerância. Por outro, as figuras da censura podem ser definidas como dados contextuais e metatextuais (no sentido de G. Genette) importantes para o estudo histórico da recepção cinematográfica. Parafraseando Jauss, podemos dizer que a história do cinema, como da literatura, é, antes de tudo, a dos processos de recepção e de qualificação das obras. Além dos comportamentos dos públicos, a história da recepção dos filmes é formada por um conjunto de discursos normativos e estéticos que revelam parte das relações de força entre os diretores, a instituição-cinema, os críticos, os moralistas e o campo político. No meio deste campo discursivo emergem as primeiras tentativas de negociação do sentido da prática cinematográfica e a necessidade de “educar” o espectador do cinema, bem como as primeiras figuras da censura cinematográfica.

Em termos de recepção, um dos paradoxos da censura e da censura prévia está relacionado com a prática de leitura “crítica” que elas pressupõem. No dicionário Aurélio, por exemplo, a censura é definida como “exame crítico de obras literárias ou artísticas”. Na censura cinematográfica, o censor oficial e os censores que “emanam da massa” prevêem e constrõem espectadores hipotéticos que devem ser protegidos contra imagens e narrativas moralmente intoleráveis. Mas o censor precisa justificar tal proibição mediante valores morais, éticos, estéticos, didáticos e ideológicos; transformando assim suas próprias impressões e sua intolerância espectatoriais em critérios normativos válidos para uma comunidade (de cineastas e de espectadores) num determinado contexto sócio-histórico. Diferentemente do crítico e do espectador ordinário, o censor é um sujeito espectador que “examina”, analisa, avalia o conteúdo imagético, narrativo e temático do filme com o único objetivo de dizer no final do visionamento se a obra está em conformidade com esses valores erguidos como normas e diretrizes para a criação.

Enquanto o banimento de obras conduz à situação paradoxal e extrema da não-recepção, os efeitos da auto-censura e da censura prévia nascem, no interior do texto, das inferências do espectador diante de estratégias de representação que têm como função driblar a censura. O último paradoxo de as figuras de censura está na procura que elas estimulam no espectador. Ao tentar impossibilitar um acesso pleno ao filme, por exemplo, a censura acaba aguçando a curiosidade espectatorial e, como disse Eisentein, “la censure contribue à la gloire des films qu' elle est censée combattre”. Na problemática da censura e de seus efeitos em termos de recepção, aparece uma série de questões que têm a ver com a formação de um metatexto, de um “horizonte de expectativa” e de uma competência textual e “enciclopédica” que determinam a relação do espectador com os filmes censurados. Com base no estudo de alguns casos de censura, de censura prévia e de auto-censura nos campos cinematográficos brasileiro e estrangeiro (arquivos da Censura cinematogáfica sob o regime militar brasileiro, código Hayes, etc.) e no estudo da prática de relançamento comercial de versões redux e “sem cortes” de filmes, pretendo discutir as dimensões espectatoriais e receptivas da censura numa perspectiva da pragmática e semiopragmática, isto é, questionando a censura cinematográfica a partir da dinâmica da interação entre o texto fílmico e os contextos institucionais, políticos e sociais de criação e de recepção das obras fílmicas.
Bibliografia

BAYARD, Pierre. Comment améliorer les oeuvres ratées?. Paris: Les Éditions de Minuit, 2000.

DOUIN, J.L. Dictionnaire de la censure au cinéma. Paris: Quadrige/PUF, 2001.

ECO, Umberto. Lector in Fabula. São Paulo: Perspectiva. 2008.

______. Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva, 2008.

GENETTE, Gérard. Palimpsestes. Paris: Seuil, 1982.

ISER, Wolfgang. L´acte de lecture: théorie de l´effet esthétique. Liège: Pierre Mardaga, 1995.

JAUSS, Hans Robert. Petite apologie de l´expérience esthétique. Paris: Éditions Allia, 2007.

ODIN, Roger. La question du public; approche sémio-pragmatique. In Réseaux, nº99, vol. 18, 2000, dossier: Cinéma et Reception, pp.49-72.

RANCIÈRE, Jacques. Le spectateur émancipé. Paris: La fabrique, 2008.

SCHEFER, Jean. L´homme ordinaire du cinéma. Paris: Gallimard, 1997.

SOULEZ, Guillaume. Quand les films nous parlent: rhétorique cinéma, télévision. Paris: PUF, 2011.

WEBER, Alain. Ces films que nous ne verrons jamais. Paris: L´Harmattan, 1995.