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  Título
O devaneio da imagem em Meteorango kid - herói intergaláctico
Autor
Euro Prédes de Azevêdo Júnior
Resumo Expandido
Em seus escritos sobre o cinema, Deleuze propõe uma tipologia das imagens cinematográficas, tendo como base as noções de imagem-movimento (ligada ao cinema clássico) e de imagem-tempo (relacionada ao cinema moderno). A imagem-movimento é a imagem fundadora do cinema: tem um desenvolvimento linear e teleológico da narrativa, uma organicidade inextrincável em seus acontecimentos e uma orientação behaviorista dos personagens (que agem e reagem segundo as situações). Já a imagem-tempo é fruto da quebra da estrutura causal da imagem-movimento: sua montagem descontínua, espiralada, de concatenação frágil, produz planos autônomos, de causalidade incerta ou ausente, em um processo que teve seus ganchos de continuidade rompidos. Estes planos desarticulados resultam, então, em ‘situações óptico-sonoras puras’. Um tipo particular de imagem tratado por Deleuze no interessa: as imagens-sonho ou 'onirosignos', que remetem à memória ou ao sonho. Na imagem-movimento, tais signos estão ligados ao flash-back ou ao sonho; já na imagem-tempo, dizem de certa indiscernibilidade entre o real e o imaginário, entre o presente e o passado. Além disso, a ideia de imagem-inação, proposta por Cláudio da Costa, nos serve aqui: em tal imagem, o meio (a situação) não é a potência para uma ação, mas a impotência que cria uma imagem-inação. A partir destes referenciais, propomos analisar algumas sequências de Meteorango kid - herói intergaláctico (1969, dirigido por André Luiz de Oliveira) que se apresentam de forma singular, pois pertencem a um 'lugar diegético' entre o sonho/devaneio do personagem e a 'realidade' dos acontecimentos do filme. Como espectadores, não somos sinalizados acerca da mudança de registro (da realidade para o sonho e vice-versa) relativas a estas sequências; não observamos ecos na trilha sonora, imagens turvas, valorização do branco entre os tons da fotografia, fade-in, fade-out, câmera lenta ou qualquer outro elemento que já tenha se tornado um signo de imagens que representam situações da mente, do passado ou do devaneio. A relação causal que determinava a imagem-movimento se encontra, em Meteorango Kid, sobremaneira frouxa; as potências de ação de nosso personagem principal (chamado de Lula BomCabelo) não se desdobram em interações diretas com o 'mundo real' do filme, mas sublimam-se em devaneios, delírios e sonhos. Lula não se interessa pelo meio, pela situação, pelo mundo à sua volta, e sendo assim, não reage fisicamente a ele, mas apenas mentalmente, imaginariamente, imageticamente.

Este trabalho pretende, portanto, apontar os elementos de indiscernibilidade quanto ao lugar destas imagens, levando a cabo uma análise que faça uso da taxionomia deleuziana. Não desejamos estabelecer uma relação de juízo de valor entre imagem-tempo e imagem-movimento (o que resultaria numa auratização de nosso objeto de estudo e dos filmes ligados à imagem-tempo, em detrimento da imagem-movimento do cinema clássico), nem apenas 'aplicar deleuze' ao filme analisado (o que seria mais uma classificação das imagens do filme - "isto é um onirosigno, isto não é; isto é um sinal da imagem-tempo, isto não é" - do que uma análise propriamente dita). Fazemos, sim, uma identificação dessas imagens no filme, mas buscamos estabelecer conexões entre as mesmas e seus efeitos no espectador, além de tentar compreendê-las no 'todo maior' de Meteorango Kid.

Bibliografia

AUMONT Jacques, MARIE, Michel. A análise do filme. Lisboa: Texto & Grafia, 2004.



COSTA, Cláudio da. Cinema brasileiro (anos 60-70): dissimetria, oscilação e simulacro. Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2000.



DELEUZE, Gilles. Cinema-I: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.



____________. Cinema-II: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.



LA SALVIA, André Luis. Introdução ao estudo dos regimes de imagens nos livros cinema de Gilles Deleuze. Campinas, São Paulo, 2006. Dissertação de mestrado em filosofia, Universidade Estadual de Campinas.



RAMOS, Fernão. Cinema marginal — a representação em seu limite. São Paulo: Brasiliense, 1987.



STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. São Paulo: Papirus, 2006.



VANOYE, François, GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.