/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A prática discursiva como constituição de autoria na pornochanchada
Autor
Luiz Paulo Gomes Neves
Resumo Expandido
A pornochanchada, gênero popular brasileiro, tem como marco inicial o ano de 1969 e perdurou até finais dos anos 1980. Em suas duas décadas de produção, é comum a divisão entre fases. A primeira, relacionada com a cidade do Rio de Janeiro, é mais estruturada em comédias de costumes produzidas na década de 1970. A segunda fase, a partir da década de 1980, é relacionada com São Paulo e representa um diálogo mais aberto das produções com o sexo explícito.

Opta-se aqui por utilizar o termo pornochanchada enquanto nomenclatura genérica, com suas características específicas, características essas desenvolvidas através da contribuição dos diversos agentes envolvidos: classe cinematográfica, exibidores, distribuidores, público, crítica, etc.

Dentro da classe cinematográfica, um dos agentes de maior distinção é Pedro Carlos Rovai. O cineasta foi um dos mais atuantes produtores/diretores da década de 1970 e sua produtora, a Sincro Filmes, representava uma referência para o gênero da pornochanchada. Na maioria dos seus filmes, que em geral conseguiram um ótimo retorno de público, mesmo quando Rovai exercia a função de produtor, os cartazes o tratavam de modo equivalente ou até mais importante do que o nome do diretor e traziam dizeres no estilo “dos mesmos produtores de...” ou “Sincro Filmes apresenta...”.

O espaço dado a Rovai nos jornais durante a década de 1970 permitiu que o cineasta estabelecesse uma aura autoral ao redor do seu nome e da Sincro Filmes, o que, minimamente, era benéfico em termos de resposta de público. Dentre uma crítica cinematográfica menos valorativa e que contribuiu também para uma teorização do cinema brasileiro, pode-se destacar duas entrevistas. A primeira é um depoimento dado a Jean-Claude Bernardet, A Chanchada É Nossa: E sem a pornochanchada, o cinema brasileiro teria 112 dias?, publicado no jornal Movimento, de 26 de janeiro de 1976. A segunda é uma entrevista a Jairo Ferreira, Pornochanchada: a autocrítica de seu profeta, publicada no jornal Folha de São Paulo, de 22 de junho de 1977. Em ambas as falas, nota-se um real discernimento crítico de Rovai sobre o gênero, sobre suas limitações estéticas e seu tom em geral moralizante, a necessidade de inovação para não chegar ao esgotamento de uma fórmula; mas ao mesmo tempo é feita uma valorização constante de sua filmografia, aproveitando o espaço também para noticiar o lançamento de alguma das suas produções.

Contudo, e aqui não se objetiva desmerecer tecnicamente a filmografia de Rovai, o que realmente permite ao cineasta estabelecer uma marca autoral em sua obra ou mesmo ser considerado um “profeta” do gênero, provém menos da análise fílmica e mais da maneira como ele se posicionou e articulou discursos dentro do campo da pornochanchada.

Para uma análise da pornochanchada, especificamente da produção de Rovai, torna-se importante a abordagem culturalista proposta por Jason Mittell em A cultural approach to television genre theory. O autor, ao propor uma abordagem mais específica do gênero televisivo, parte do pressuposto que os gêneros são categorias culturais que ultrapassam as fronteiras dos textos midiáticos e operam com a indústria, público, tal como as práticas culturais.

Se Mittell considera a prática discursiva como a melhor forma de análise do gênero, cabe, para dar conta de uma distinção autoral dentro do campo da pornochanchada, a utilização da abordagem semântico/sintática/pragmática de Rick Altman, aprofundada em Film/Genre e que inclui de forma mais igualitária também o texto fílmico.

Ao priorizar as abordagens genéricas de Mittell e Altman para a análise de Rovai, não se pretende fazer uma revalorização do cineasta, diferenciando-o do restante do gênero. O objetivo é observar a prática discursiva como método de distinção, resultando no estabelecimento de uma autoria dentro da pornochanchada.
Bibliografia

ABREU, Nuno César. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Editora Unicamp, 2006.

ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Film Institute, 1999.

BERNARDET, Jean-Claude. A Chanchada É Nossa: E sem a pornochanchada, o cinema brasileiro teria 112 dias?. Movimento, São Paulo, n.30, 26 jan. 1976.

______. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

FREIRE, Rafael de Luna. A idéia de gênero nacional no cinema brasileiro: a chanchada e a pornochanchada. In: FABRIS, Maria Rosaria; SOUZA, Gustavo; FERRARAZ, Rogério (orgs.). Estudos de cinema e audiovisual Socine. São Paulo: Socine, 2010. P. 556-570.

FERREIRA, Jairo. Pornochanchada: a autocrítica de seu profeta. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 jun. 1977.

GRANT, Barry Keith (ed.). Film genre reader III. Austin: University of Texas Press, 2003.

MITTELL, Jason. A cultural approach to television genre theory. Cinema journal 40, Austin, n.3, Spring 2001.