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  Título
Kieslowski, Jarman e Klein: variações em torno do azul
Autor
Susana Madeira Dobal Jordan
Resumo Expandido
Embora a cor no cinema narrativo esteja em princípio relacionada a elementos concretos que compõem a imagem, ela pode também tornar-se quase uma abstração, um veículo que conduz do território das interações para o da intimidade onde impera o desejo de abarcar toda a experiência do mundo. Mesmo que tal experiência seja impalpável, ela foi traduzida como pelo menos uma cor no cinema e na arte. Esse movimento interior informa explorações da cor azul na obra de três criadores: Krystof Kieswlowski no seu filme Bleu (1993), Darak Jarman, no filme Blue (1993) e Yves Klein nas suas explorações da pintura monocromática e do azul ultramarino (década de 1950 até 1962). Partindo de problemas específicos a cada contexto em que as obras foram realizadas, o azul em comum revela não só um ponto de interseção entre as três interpretações do azul, como também uma possibilidade de diálogo entre o cinema e a arte em processo de mútua elucidação.

O filme de Kieslowski faz parte de uma trilogia de três cores, azul, vermelho e branco relacionados aos ideais da revolução francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Apesar da alegoria política, o filme Blue é o mais intimista da trilogia: se por um lado o enredo menciona a composição de um hino que celebra a unidade europeia, por outro, a personagem principal deve lidar com o luto, reconstituir laços e sair do limbo da melancolia em azul. O filme é permeado de objetos dessa cor e de cenas como as de pessoas vistas pela televisão em momento de queda. Para o cineasta, o tema do filme é a liberdade, vista como o aprendizado da personagem que tem que se libertar do seu passado bruscamente interrompido. Pode-se dizer também que a batalha travada aqui é também contra o impulso de dissolução para a qual levam o luto e a sedução do azul.

Os filmes de Darak Jarman exploram uma linguagem cinematográfica própria e são conhecidos também pela defesa da causa homossexual. O filme Blue (1993) é uma referência biográfica ao momento em que o cineasta já estava ficando cego em decorrência da AIDS. O filme mostra apenas uma tela azul e uma narrativa de fragmentos sem enredo com sons diversos e trilha sonora. Esse cinema reduzido às suas partes elementares onde obrigatoriamente o espectador é obrigado a ouvir o som e a ver o azul, está diretamente relacionado não apenas à doença do cineasta, mas a um projeto de vida a favor do cinema independente. Em filme anterior, Caravaggio (1986), o azul já aparecia não como cor vista, mas como cor comentada nas falas do pintor trazendo já na forma teatral do filme um questionamento sobre a linguagem cinematográfica presa às fórmulas do cinema comercial narrativo. O Blue de Jarman é uma espécie de réquiem, mas também um libelo político em prol da causa homossexual e em prol de um cinema que renovasse fórmulas gastas de como se constar uma história por meio de imagens e sons.

Yves Klein partiu de contexto diferente não só em termos cronológicos como também quanto à forma, já que atuou no território da arte na década de 1950. Sua pesquisa com o azul faz parte de um coerente percurso em busca de uma forma para representar o impalpável que ele traduziu tanto como o azul ultramarino, mas também como uma mera sala branca e vazia. Sua busca pela representação do inefável, às vezes mais uma simulação a ser vivenciada pelo espectador do que uma obra a ser admirada, levou-o a experimentar com diversas soluções que iam desde telas monocromáticas, instalações, à foto em que ele aparece supostamente saltando de braço abertos no vácuo, rumo ao chão. A obra de Klein, no entanto, desenvolve-se em ambíguo movimento de dissolução e de celebração que culminaria por transformar o corpo humano em carimbo para as suas telas.

Essas três variações em torno do azul surpreendem pela maneira como, em contextos ou em meios diferentes, elucidam reciprocamente a escolha do azul, e encenam o duelo entre uma extática celebração da vida e o impulso de imergir no vazio.
Bibliografia

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