/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Trajetórias masculinas no cinema brasileiro dos anos 1950
Autor
Flávia Cesarino Costa
Resumo Expandido
É possível detectar uma linhagem de filmes brasileiros na década de 1950 em que o tema da masculinidade desconfortável está posta como sintoma em personagens que estão de alguma forma atormentados. São homens que sentem sua potência patriarcal diminuída e que estão perdidos diante de transformações cotidianas com as quais eles não sabem lidar, como, por exemplo, a maior assertividade das figuras femininas e a crescente demanda de um posicionamento mais claro por parte dos filhos e de personagens mais jovens. Um ambiente de claustrofobia e de tédio provocada pelo ambiente familiar entra em conflito com as sensações escondidas e as vontades íntimas dos personagens. Mulher de verdade (Alberto Cavalcanti, 1954) e Simão, o caolho (1952), são exemplos paulistas destas trajetórias.

Em Simão, o caolho (1952) o fracasso do protagonista na tarefa diária de ser mandão, ganhar dinheiro e manter a casa e realizar os poucos sonhos de consumo da esposa faz coro ao desconforto de vários personagens masculinos de filmes dos anos 1950. Em Mulher de verdade (1954) uma enfermeira manipula seus dois maridos por um bom tempo. As duas comédias de Cavalcanti sinalizam sintomas de uma masculinidade deslocada diante das transformações no estilo de vida moldado na incipiente modernidade da cidade que cresce.

Tais sensações masculinas – incipientes ou sutilmente presentes em filmes dos anos 1950, em dramas como O grande momento (1958, direção: Roberto Santos, produção: São Paulo, Nelson Pereira dos Santos) nas comédias paulistas como O homem dos papagaios (1953, direção: Armando Couto, produção: São Paulo, Multifilmes) e Família Lero-Lero (1953, direção: Alberto Pieralisi, produção: São Paulo, Vera Cruz), ou mesmo em chanchadas como aquelas em que Zé Trindade atua ao mesmo tempo como marido e namorador dissimulado (do tipo Mulheres à vista, de 1958 ou Entrei de gaiato, de 1959, ambas dirigidas por J.B.Tanko) – estarão, mais tarde, claramente delineadas em dramas confessionais como São Paulo S.A. (1965, direção: Luiz Sérgio Person) ou nas obras de Nelson Rodrigues filmadas nos anos 1960 e 1970 – sendo, estes últimos, enredos que, nas palavras de Ismail Xavier, escancaram “uma ordem patriarcal desmoralizada, pelos novos costumes e minada por dentro, seja por figuras de pai incapazes de cumprir o papel que a tradição lhes reserva, seja por uma galeria de maridos fracos cuja mediocridade, moralismo ou paranóia arruínam a vida conjugal”. Essas questões são recorrentes e podem ser cartografadas no cinema brasileiro da década de 1950.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude; GALVÃO, Maria Rita. O nacional e o popular na cultura brasileira: cinema. São Paulo, Embrafilme/Brasiliense, 1983.

GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e cinema: o caso Vera Cruz. São Paulo: Civilização Brasileira, 1981.

GALVÃO, Maria Rita; SOUZA, Carlos Roberto de. Cinema brasileiro: 1930-1964. In: FAUSTO, Boris (org.). História geral da civilização Brasileira, Tomo III: O Brasil republicano, Volume 4: Economia e cultura (1930-1964). São Paulo: Difel, 1984, pp.461-500.

NOVAIS, Fernando A.; MELLO, João Manuel Cardoso. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: SCHWARCZ, Lilia (org.). História da vida privada no Brasil, vol 4. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

XAVIER, Ismail. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, cinema novo, Nelson Rodrigues. São Paulo, Cosac & Naify, 2003.