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  Título
A paixão segundo Dreyer
Autor
Angeluccia Bernardes Habert
Resumo Expandido
Esta comunicação retoma a questão da hagiografia moderna. Ao continuar a discussão realizada em torno do filme de Alain Cavalier, Thérèse (1986), que enfeixa ações cotidianas, gestos e morte de uma personagem contemporânea da invenção da fotografia, este trabalho detém-se na Paixão de Joana D’Arc, filmada por Dreyer, em 1928 (La Passion de Jeanne D’Arc). A singularidade humana é apresentada em relação à implacabilidade do silêncio de Deus: “como Cristo em Getsemani, Joana está absolutamente só. Nenhum Deus a socorre, nem um espírito aparece para consolar ou mitigar a sua dor” . Recebido na época com alvoroço pela vanguarda francesa, para Bernardi(2011) o filme tem sido vítima de uma crítica espiritualista que suaviza a problemática existencial e a sua imanência da realidade. Dreyer não era um crente, e adota, como próprio, o pessimismo existencial de Kierkgaard.

No cinema, foram muitas as narrativas realizadas sobre “a donzela de Orléans”, desde 1900, quando Méliès criou “um grande espetáculo em 12 quadros com 500 pessoas em cena em costumes esplendorosos” e foi seguido, em 1917, pela superprodução de Cecil B. De Mille, Joan the woman. O cinema continuou a reconstituir à sua maneira o mito da jovem camponesa, visionária e inspirada, que parte em defesa de seu rei, tornando-a, outras vezes, “ilustração das reflexões e hesitações ideológicas que atravessam os séculos” (Foucart, 2004). Mas, em nenhum momento houve mais consistência e força que no filme de Dreyer.

A película foi rodada, cronologicamente, em 6 meses, seguindo a ordem do julgamento, até o suplício na fogueira, com todos os diálogos retirados das atas do processo. Escreve Sadoul (1967) que Dreyer, ao chegar a Paris, disse que queria fazer um filme falado. Fez, assim, os atores aprenderem e recitarem as falas do roteiro numa atmosfera de incorporação dos personagens. Ao utilizar os close ups de forma mais expressiva, deu aos rostos uma força estranha, e revelou os sentimentos mais interiores. As rugas, os movimentos de boca , os olhares destacados de um cenário neutralizado apresentam a fragilidade da jovem, submetida aos seus cruéis juízes. Assim, capta o sentimento humano de impotência e da morte.

“O objetivo é o suplício, a morte na fogueira , da jovem prometida ao fogo e sua longa agonia. É, enfim, a injustiça tomando lugar da justiça, a razão lutando contra a inspiração, a iluminação”, disse mais tarde Bresson sobre seu filme Le procès de Jeanne D’Arc, que realizou em 1963, e como Dreyer, se apoiou nas atas do tribunal.
Bibliografia

BERNARDI, Auro. Lo Schermo di Dio – cinema e pensiero religioso. Genova : Le Mani, 2011.

FOUCART, Claude. Cette vivante énigme: Jeanne D’Arc. Cahiers de recherches médiévales et humanistes. 11, 2004, 19-29.

SADOUL, Georges. Dictionnaire des films. Paris: Seuil,1967.