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  Título
Rosto como paisagem em Jean Gentil
Autor
Diego Hoefel
Resumo Expandido
Se pensarmos de que maneira o primeiro plano é apresentado no cinema de realizadores como Kiarostami, Jia Zhan-ke, Tsai Ming-Liang não conseguiremos enquadrar esses rostos nas ideias de vetorização e acúmulo de dados narrativos propostas por Jacques Aumont, em Visage au Cinema. A busca por filmar presenças, tão central no cinema contemporâneo, repercute em um desejo de mostrar rostos em estado puro, expressões em devir. Livres da hermenêutica e da teleologia do cinema clássico, essas aparições são mais paisagens do que retratos.

Para Goldberg, o retrato é a mis à distance do rosto, no sentido de que é sua encenação voluntariamente admitida e portanto adiciona ao rosto informações que orientam sua leitura. Quando tomamos isso em mente, fica claro que em um filme como Jean Gentil (Israel Cárdenas, Laura Gusmán, 2010) não podemos tratar os rostos como retratos. Existe na impermanência dos pequenos gestos (que estão tanto nos rostos, quanto nas paisagens do filme) uma resposta direta a um mundo tão duro quanto o do Haiti após o terremoto. Em cada troca de olhares, em cada expressão de (des)esperança, afetos que se inauguram no mundo, com todo o vigor e a porosidade dos rompantes, por mais sutis que sejam.

Assim surge uma inquietação: a de se perguntar sobre como rosto e paisagem se relacionam no cinema contemporâneo, a partir da forma como esses dois planos (distintos e extremos) são apresentados em Jean Gentil. Essa questão vai além de analisar a forma como os realizadores enquadram o mundo. A maneira como o primeiro plano e o plano geral são tratados diz de uma escolha do que e de como evidenciar. Essa decisão ganha uma relevância significativa se pensarmos o audiovisual como uma ferramenta capaz de comprometer estética e politicamente o espectador, afetando-o com as questões dos sujeitos ali representados. Para tanto, é preciso que os planos pulsem, que eles carreguem esperas, inquietações, contentamentos. Hoje, mais do que nunca, é essencial pensarmos nesse estado de afetação (e virulência) que é possível atingir com algumas imagens. O cinema como uma possibilidade de contaminação. O contato com outros modos de existência como um vírus de tolerância, respeito e mobilização coletiva.

E por isso o rosto, síntese relacional do outro. E por isso a urgência de pensá-lo, de potencializar suas representações. O rosto como um espaço em que se evidencia o que não pode ser dito, tal qual a paisagem, na errância de suas transformações.
Bibliografia

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AGAMBEN, Giorgio. Les Moyens sans Fins. Paris: Payot Rivages, 2002.

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PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens Urbanas. São Paulo: Editora SENAC, 2003.

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