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  Título
O musical como perversão narrativa nas chanchadas da Atlântida
Autor
Bernadette Lyra
Resumo Expandido
Na realidade complexa dos estúdios de Hollywood, o gênero musical se desdobra e passa por modificações estruturais que o acompanham, desde seus princípios tecnologicamente apoiados no sistema sonoro até o começo de uma imposição narrativa genérica que ocorre a partir do fim da década de 40. Pode-se dizer que na primeira etapa de desenvolvimento dos filmes musicais, sobretudo até meados dos anos 30, ocorre uma forma estrutural que se assume como backstage musical e que se apóia quase sempre em uma história de bastidores que tem seu final em números musicais com danças e coreografias que, com as peripécias de suas dificuldades e resoluções, seriam a motivação das tramas. Mas, a partir da estrutura que se instala em filmes estrelados pelas coreografias da dupla Ginger Rogers e Fred Astaire para a RKO, estrutura essa logo acolhida pela MGM, que passa a liderar o setor dos musicais nos anos 40 e 50, começa a ser posta em cena uma outra estratégia fílmica em que os corpos dos atores dançarinos compõem intimamente com o corpo do filme, integrando os números musicais à narrativa. É o integrated dance musical, que tem talvez seu ponto mais espetacular na sequência noturna de dança de Fred Astaire e Cyd Charisse, em A Roda da Fortuna (1953), de Vincente Minnellli. Assim, a diferença essencial entre essas duas modalidades formais se estabelece sob a forma de autonomia ou de integração dos números musicais no decorrer do filme.

Não é difícil observar as formas primitivas do backstage musical na economia narrativa das chanchadas da Atlântida. Até mesmo muito mais do que se poderia afirmar sobre a existência nelas de formas do integrated dance musical, que viria a se firmar depois como forma clássica do gênero musical no cinema. Porém, nas chanchadas brasileiras, essa estratégia de incorporação das técnicas dos musicais de Hollywood se dá de modo totalmente desvinculado das estratégias básicas dos dois modelos usuais nos estúdios americanos e mesmo de sua superação e miscigenação histórica. Pode-se observar que, para além mesmo dos contratos estabelecidos com a indústria fonográfica que tornavam as chanchadas produtos cinematográficos da época carnavalesca, nesse tipo de filmes predominam números musicais que guardam autonomia e indiferença com relação à história narrada nos filmes. Nas chanchadas, o aparato sonoro e imagético se apresenta autônomo e solto, entrando em disjunção com o aparato narrativo e provocando uma espécie de instabilidade no tecido fílmico. São verdadeiras pequenas histórias isoladas que vêm confeitadas com astros e estrelas da Atlântida, em especial Eliana, e retomam, em segunda mão, a decoração faustosa e os números vistosos de dança da história dos musicais americanos, bem como apresentam um aparato cênico repleto de um falso refinamento e brilho, cenas praianas, roupas regionais, paisagens e coreografias pseudamente étnicas e outras “brasilidades”. Tudo posto a serviço da estetização de um imaginário popular do Brasil. Assim, as músicas são materializadas no decorrer das narrativas fílmicas, sejam elas carnavalescas ou não, e com essa materialização ganham contornos de episódios musicados, inseridos na narrativa, mas sem manter uma conversação com ela. E tais episódios musicais estão fundamentados no repertório de um Brasil de ficção, "desnaturalizado", em que o brilho pretensamente chique que envolve coreografias, vestimentas e decoração (muitas vezes imitadas dos números musicais de filmes americanos), ou mesmo o colorido étnico e passos de ritmos dançantes brasileiros se misturam a elementos que o imaginário popular toma como sendo as marcas identificatórias do país.
Bibliografia

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CATANI, Afranio; M., SOUZA, José I. de Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983.

GRILO, João Mario. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio d'Água, 1996.

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VIEIRA, João Luiz. O corpo popular, a chanchada revisitada ou a comédia carioca por excelência. Revista Acervo, v.16, n.1, 2003.