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  Título
Lembranças de uma filmagem: o movimento criador em Alain Resnais
Autor
Sônia Maria Oliveira da Silva
Resumo Expandido
As pesquisas de gênese cinematográfica permitem frequentemente o lançamento de novas luzes sobre obras cujas análises mantiveram-se ao longo dos anos pautadas por concepções engessadas. Ainda que o campo não tenha por objetivo explicar a obra a partir do estudo dos registros de seus processos criativos, os elementos que resultam desse tipo de investigação não raramente permitem relativizar certas tendências de leituras canonizadas, na maioria das vezes, impulsionadas pelo contexto de lançamento do filme.

O Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961), filme-fetiche dos anos Nouvelle Vague é um exemplo eloquente desse fenômeno. A análise de alguns registros do processo de criação desse segundo longa-metragem de Resnais conduz-nos a retirar o olhar do espectador daqueles elementos que foram repetida e exaustivamente sublinhados pela crítica, permitindo ver o filme sob novos ângulos.

O objetivo do trabalho é discutir as superposições dos diferentes processos criativos que envolveram a construção do filme baseando-se no making-of Souvenirs d’une année à Marienbad (Spira, 2009), documentário de filmagem cujas imagens foram capturadas pela atriz Françoise Spira, uma das atrizes do elenco. Se essas imagens dão a ver certos aspectos norteadores da filmagem, estas só podem refletir tal momento porque postas em cruzamento com outros registros, tais como versões do roteiro de Alain Robbe-Grillet, plano de trabalho e outras anotações da continuísta Sylvette Baudrot. Esses registros (fotos, notas, cartas), inéditos em sua maioria, compõem uma memória indicial do movimento de criação dessa obra.

Os planos “insólitos” propostos pelo roteiro de Alain Robbe-Grillet no roteiro do filme enfrentaram os constragimentos da realidade imposta pelo cenário real dos castelos da Baviera. Uma análise comparativa entre o roteiro decupado e a versão publicada de Alain Robbe-Grillet (1961) deixa entrever as modificações feitas pelo diretor com vistas a ajustar o texto do roteirista ao seu projeto estético.

Percebe-se que as modificações feitas no plano de trabalho da filmagem “corrigem” muito mais o trabalho preparatório em si, a etapa antecedente, ajustando-o à realidade dos cenários naturais. Essas mudanças alteram uma espécie de dispositivo espaço-temporal criado pelo próprio diretor com vistas a solucionar o complexo texto de Robbe-Grillet.

Criado para orientar a equipe quanto a sucessão dos eventos, principalmente para a efetuação dos raccords, esse dispositivo foi sobretudo manipulado pelo diretor e os resultados dessa operação, anotados pela continuísta sob orientação de Jean Léon, primeiro assistente de direção. Feitas durante a filmagem, as modificações surgem para auxiliar no enfrentamento de novos desafios surgidos, impostos, em sua maioria, pelo cenário natural dos castelos da Baviera e os problemas de luz ocorridos durante as filmagens externas do jardim sob um frio desolador de uma primavera glacial.

Bibliografia

BERTHOMÉ, J.-P., THOMAS, F. Orson Welles au travail. Paris : Cahiers du Cinéma, 2006.

MONZANI, Josette. Gênese de Deus e o Diabo na Terra do Sol. São Paulo: Annablume/Fapesp; Salvador: Centro de Estudos Bahianos da UFBA e Fundação Gregório de Mattos, 2005.

SALLES, C. A. Crítica Genética. Fundamentos dos estudos genéticos sobre os processos de criação artística. São Paulo: Educ, 2008.

______. Redes da Criação – Construção da obra de arte. Vinhedo (SP):

ROBBE-GRILLET, A. L’année dernière à Marienbad. Paris: Éditions de Minuit, 1961.

THOMAS, F. L’atelier d’Alain Resnais. Paris: Flammarion, 1989.

Obras Audiovisuais

O ANO Passado em Marienbad. Alain Resnais. França, 1961, filme 35 mm.

SOUVENIRS d’une année à Marienbad. Françoise Spira, França, 2010, filme 8 mm.

Arquivos

Fundo Delphine Seyrig. Bibliothèque Nationale de France (Arts du Spectacle), Paris, 2002.

Fundo Georges Pierre. Bibliothèque du Film. Paris.

Fundo Sylvette Baudrot. Bibliothèque du Film. Paris.