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  Título
Arte-vida na produção em Super-8 de Edgard Navarro
Autor
Danillo Silva Barata
Resumo Expandido
Na Bahia a produção dos anos de 1970 apresentou um dos mais irreverentes e emblemáticos artistas de sua geração: Edgard Navarro.

O início da década de 1960 vai instaurar a quebra de um novo paradigma na arte: não se representa, nem interpreta e agora tudo é apresentado. Talvez o conceito de apresentação seja o mais apropriado para criar as bases da performance e da produção marginal do período. O artista, o seu corpo em diálogo com o espaço, com o público e com a câmera.

O corpo em diálogo com o espaço emerge em um período onde a inquietação de diversos artistas, tomados pela ideia da chamada antiarte, desperta novas maneiras de re-significar a estética e a própria definição de arte. Assim o corpo assume um lugar estratégico para ação artística. Um desejo de retornar ou tomar a cabo o famoso lema dadaísta, a fusão da arte-vida.

A transgressão, na prioridade do conteúdo sobre a forma, e, sobretudo, no desejo de fazer cinema, notabilizou a militância do Super-8 na Bahia. A busca por uma linguagem própria possibilitou uma abordagem política. A tragédia, o desconforto e a crítica social também foram a tônica das atividades incluindo as discussões de gênero. Desse modo, a produção da época traz a experiência marginal e contribui de forma definitiva para uma nova gramática estética audiovisual.

O estreitamento entre arte-vida era a forma que o artista estabelecia a interlocução social, sendo agente primordial do discurso contundente e provocativo, arraigado à sua poética, diminuindo os espaços interior-exterior. É com isso que Edgard apresenta filmes, que podemos denominar, da época do desenvolvimento psicossocial, cujas fases são representadas por zonas erógenas, a saber: Oral, Anal, Fálica, Latência e Genital, que determinam aspectos da personalidade, seus complexos e seus conflitos. É evidente que a aproximação com a psicanálise provoca esse estreitamento com o espaço do íntimo. Nos anos de 1970, as leituras e métodos da psicanálise popularizavam-se no Brasil.

Notadamente, na Bahia essas práticas vão ser incorporadas nas obras e na linguagem de uma geração, que nos anos de 1980 migram para uma terapia corporal.

Os filmes que marcam sua produção super-oitista concebem a criação artística como uma atividade de cunho social e político. Para além do alegórico ou do meramente visual, os trabalhos têm um compromisso com o diálogo com o corpo e a câmera. Abarcam, de certo modo, a própria cidade, que é compreendida para além da sua geografia e arquitetura, como uma comunidade de sentidos plurais e muitas vezes conflitantes.

No filme Alice no país das mil novilhas, adaptação do clássico de Lewis Carrol, a fabulação é um elemento marcante, com referências à contracultura. Filme inaugural de Navarro com a participação substantiva de atores afrodescendentes.

Exposed apresenta uma estrutura familiar dilacerada com destroços de memórias e objetos íntimos. Tal paisagem é contrastada com a “virilidade armada” do Estado à época. São expostos com fotografias e imagens de TV os fantasmas do tal regime. O filme cria uma dialogia entre passado e presente na Bahia.

O Rei do Cagaço, um dos filmes mais emblemáticos do artista, é uma referência clara a fase Anal, que segundo os estudiosos é a “ambivalência da dor e ambivalência do prazer”. Karl Abraham sugeriu que a fase sádico-anal fosse subdividida em duas fases. Em uma delas o estudioso define que o erotismo anal está ligado à evacuação enquanto que a pulsão sádica tem por objetivo a destruição do objeto.

Lyn e Katazan é inspirado na Fazenda Modelo, obra literária de Chico Buarque. Aborda um conflito de classes entre Lin, um simples operário da construção civil, que vive de forma plena a descoberta do seu corpo.

Para além da impressão imagética, a poética visual da intervenção busca dar voz ao cidadão-artista, que, utilizando-se do seu meio particular de expressão, suscita um diálogo com os outros falares em circulação.
Bibliografia

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