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  Título
Imagens fronteiriças no desfronteiramento entre cinema e literatura
Autor
Flávia Silva Neves
Resumo Expandido
A partir dos anos 90 é possível identificar na produção cultural brasileira, a presença de obras literárias e cinematográficas que abordam a temática da fronteira e do deslocamento, dialogam com o público e com a crítica, apropriam-se de gêneros, incorporam elementos transculturais, mostrando novas articulações com o espaço e com o tempo. Esta confluência de características, que marcam essas produções são sintomas das novas configurações do mundo contemporâneo. Pretende-se pensar as noções de fronteiras transnacionais, transmidiáticas e de gênero na literatura e no cinema contemporâneo, presentes nos filmes homônimos Os Matadores (1997), de Beto Brant e Cabeça a prêmio (2010) de Marco Rica, realizados, respectivamente, a partir de um conto (1994) e um romance (2003) de Marçal Aquino. As narrativas se passam na mesma zona fronteiriça - Brasil, Paraguai, Bolívia. Com efeito, são obras que suscitam novas teorias capazes de empreenderem novos procedimentos metodológicos, a partir de conceitos como “materialidade” e “presença” (GUMBRECHT, 2010), considerando o filme e o livro nas suas dimensões materiais e de sentido. Busca-se por um vocabulário que contemple a relação entre as artes, de forma a superar abordagens que tratam cada linguagem separadamente e que consideram as suas especificidades de forma isolada. Trata-se de pensar a noção de fronteira explorando seus diversos aspectos: físico, geográfico, cultural, considerando ainda, a sua dimensão sensível. A fronteira como membrana permeável das superfícies dos corpos, gestos, desejos, falas e afetos. Interessa-nos o entre, o devir, a relação do cinema com o espaço, os atravessamentos, para além de uma linha que divide territórios e tampouco a sua simples dissolução. Imagens turvas de personagens em trânsito, à deriva, de estrangeiros, de trocas de produtos, constituindo uma atmosfera hibrida, onde línguas, músicas, sons, gestos e sujeitos, advindos de vários lugares, se misturam indistintamente. A fronteira constitui-se, portanto, como uma zona de indiscernibilidade, de vizinhança, o lugar do inclassificável, do impuro, do híbrido, onde é possível agregar o contraditório, o ambíguo. Em Cabeça a prêmio e em Os Matadores, filmes e textos literários, as temporalidades são múltiplas e as personagens estão sempre em trânsito, por diversos espaços de passagem. Estão em situações limites de suas vidas, passando de uma região para outra, da legalidade para o crime, do sol para a sombra, da contenção para a entrega à paixão. Estão em constante deslocamento pelo Brasil e por suas fronteiras. Bares, motéis, estradas, veículos, são os espaços de passagem, onde as ações se desenvolvem. É difícil identificar onde as personagens estão: São Paulo? Paraguai? Rio Branco? Caracterizando, portanto, um não pertencimento e a precariedade dos processos de representação da identidade das personagens e dos espaços. Refletir a cerca destas produções que exploram contextos de trocas e movimentos contínuos entre culturas, implica deixar em suspenso ideias como pureza e nacionalismo. Para além de pensarmos a vocação representativa do cinema e da literatura, nas suas hipotéticas missões culturais de empreenderem a construção de uma identidade nacional, o interesse deste estudo é deslocar a questão, na tentativa de compreender também o lugar do espectador/leitor, quando tomado pelo fluxo destas imagens. A outra questão que pretendemos explorar é relativa ao estudo dos gêneros literários e cinematográficos. Buscamos compreender o gênero - no caso o policial - como um modo, como uma chave de leitura, que visa estabelecer um diálogo com público. Investigaremos como os filmes e textos literários articulam o jogo de repetição e diferença dos elementos constitutivos, com o objetivo de destacar a presença constante de mutações e hibridações.
Bibliografia

AQUINO, Marçal. Cabeça a prêmio. São Paulo. Cosac Naify.2003. ______. Miss Danúbio. São Paulo. Scritta, 1994.



DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. São Paulo; Editora 34, 1997.



FIGUEREDO, Vera Lúcia Follain de. Narrativas migrantes: literatura, roteiro e cinema. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: 7Letras, 2010.



FRANÇA, Andréa. Terras e fronteiras no cinema político contemporâneo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

_____ e LOPES, Denilson, (org.). Cinema, globalização e interculturalidade. Chapecó, SC: Argos, 2010.



FREIRE, Rafael. Carnaval, mistério e gangsters: o filme policial no Brasil (1915-1951) / Rafael de Luna Freire. – 2011. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, 2011.



GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir. Editora PUC, 1ed. Rio de Janeiro. 2010. P: 33.