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  Título
Daqui para qualquer lugar: passagens e afetos no cinema brasileiro recente
Autor
Alessandra Soares Brandão
Resumo Expandido
Na virada do século 21 e, desde então, nos primeiros anos do novo século, o cinema brasileiro parece ter incorporado muitos aspectos do contexto contemporâneo de dispersão e circulação humanas em suas produções. Um número significativo de narrativas de deslocamento povoa as telas do cinema brasileiro recente com personagens que parecem existir e resistir à imobilidade na (des)ordem do mundo contemporâneo. Nesse sentido, chama a nossa atenção o quanto desses personagens errantes são jovens que se encontram em situações de “passagem”, seja para um vida adulta, seja para um novo espaço, ou mesmo para a superação de uma condição específica, como a aceitação da morte do amigo em Estrada para Ythaca.

Em filmes como O Céu de Suely, Nome Próprio, Os Famosos e os Duendes da Morte e Estrada para Ythaca, as trajetórias de jovens personagens é permeada de uma inquietante sensação de perda e de incertezas, que os filmes realçam, inclusive, no que diz respeito a suas noções de origem e pertencimento. Nesses filmes permeados de transição, o impulso de mudança e de mobilidade pode ser entendido de forma mais produtiva a partir de uma noção de “passagem”, em contraste com a ideia teleológica de um objetivo de chegar a algum lugar específico ou mesmo um destino final. As trajetórias se lançam para qualquer lugar e a passagem, o entre-lugar do trânsito, imbui-se de intensidade e de afeto.

Desse modo, na tentativa de trilhar rumos ainda que incertos, esses personagens transitam nos interstícios entre seu mundo interior e o mundo externo, entre o aqui e o lá, confundindo os limites do dentro e do fora em deslocamentos que se fazem tanto físicos quanto subjetivos. Ao mesmo tempo, o constante estado de transição que esses filmes constroem, estabelecem laços afetivos que nos co-movem e nos convidam a pensar os filmes a partir de sua e-moção (e-motion, como pensado por Giuliana Bruno). Nesse sentido, teorias de desterritorialização e de afeto (principalmente a partir de Baruch Spinoza, Gilles Deleuze, Feliz Guattari e Suely Rolnik) fazem-se importantes instrumentos para perceber as formas como as novas gerações atravessam o cinema brasileiro e fogem aos clichês das formas de representação dominantes.
Bibliografia

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