/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Análise dos modos de representação em documentários de mesma temática
Autor
Eduardo Tulio Baggio
Resumo Expandido
A partir de uma perspectiva teórica cognitiva-analítica, que é uma das principais linhas de pensamento sobre o cinema documentário e que entende que é a enunciação documentária o fator principal de definição desse tipo de filme, é possível identificar processos constitutivos dos discursos fílmicos documentais, chamados de modos de representação do cinema documentário. Tais modos se caracterizam por opções ético-estéticas próprias, que geram diferentes modelos típicos de significação fílmica.

A evolução paradigmática dos modos de representação baseia-se em fundamentos éticos, apresenta diferentes formas de relacionamento dos realizadores com os temas tratados e, principalmente, gera abordagens e características estéticas diversas como resultado desses pressupostos éticos.

Os modos de representação foram e são estudados em várias vertentes. Porém, nas análises comparativas entre os modos sempre existiu a limitação de que os documentários analisados faziam abordagens de temas diferentes e/ou foram realizados em momentos distintos, sem unidade de contexto de produção. Desta forma, analisar paralelamente documentários que optam por modos de representar diversos e, por consequência, comparar suas escolhas a partir de fundamentos éticos sempre foi uma tarefa difícil, pois ao examinarmos filmes distintos, até mesmo se forem documentários com temas em comum, sempre teremos contextos de realização distintos. Assim, esse tipo de pesquisa enfrenta uma barreira metodológica muito forte.

Um caminho interessante para o exame comparativo de documentários que optam por modos de representação distintos seria um corpus de filmes com o mesmo tema e o mesmo contexto de realização. Como essas premissas são muito difíceis, praticamente impossíveis, em filmes presentes na história do documentarismo, houve a opção metodológica pela realização dos filmes analisados na pesquisa aqui apresentada.

Essa comunicação visa um primeiro relato da experiência de constituição e análise de um corpus de três filmes documentários de curta-metragem, feitos especificamente com a finalidade de pesquisa, cada um correspondendo a um modo de representação específico: um expositivo, um observativo e um participativo. Esse processo está em andamento como pesquisa de doutoramento e busca discutir tanto as escolhas na realização dos documentários como uma análise dos filmes finalizados.

Na busca por um tema que pudesse atender as necessidades da pesquisa, possibilitando abordagens expositiva, observativa e também participativa, alguns critérios foram colocados. As primeiras reflexões sobre as possibilidades temáticas excluíram assuntos muito ligados aos pressupostos específicos de um só dos modos de representação estudados, como temas de natureza, muito ligados ao modo expositivo, ou temas de denúncia social ou política, característicos dos modos observativo e participativo. Ainda que todo tipo de tema possa ser abordado por qualquer um desses três modos de representação, buscar um tema que não fosse tradicionalmente ligado a um dos modos era um pressuposto importante.

Após a observação das tradições temáticas na história do cinema documentário, a escolha se deu por um tema que determinasse um local, um espaço geográfico, e que esse local tivesse importância histórica e/ou social. Por fim, a opção foi pela realização dos três documentários sobre um leprosário.

Os leprosários foram criados no Brasil por um decreto do presidente Getúlio Vargas e visavam o isolamento dos doentes de hanseníase, na época chamada de lepra. Com um tema localizado e com apelo sócio-histórico, seriam possíveis as abordagens diversas, cada uma seguindo um dos modos de representação.

Os três documentários estão em fase de realização e já estão seguindo caminhos específicos de cada modo de representação. Na comunicação serão analisados esses caminhos, bem como exemplificadas as diferenças na constituição discursiva dos filmes, visando uma comparação das asserções produzidas por cada um deles.

Bibliografia

GAUTHIER, Guy. O documentário: um outro cinema. Campinas, SP: Papirus, 2011.



NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2005.



____________ A Voz do documentário. In: RAMOS, Fernão Pessoa. (org). Teoria contemporânea do cinema (Volume II). São Paulo: Editora Senac, 2005.



PENAFRIA, Manuela. O filme documentário: história, identidade, tecnologia. Lisboa: Edições Cosmos, 1999.



_______________. (org.) Tradição e reflexões: contributos para a teoria estética do documentário. Livros Labcom, 2011.



RABIGER, Michael. Dirección de documentales. 3ª edición, Madrid: Instituto Oficial de Radio y Televisión, 2005.



RAMOS, Fernão Pessoa. A cicatriz da tomada. In: RAMOS, Fernão Pessoa (org.) Teoria contemporânea do cinema (Volume II). São Paulo : Editora Senac, 2005.



__________________. Mas afinal... O que é mesmo documentário? São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008.



TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. (org). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.