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  Título
Predestinado para o deserto: o incalculável Teorema de Pasolini
Autor
Fernando de Mendonça
Resumo Expandido
De todos os desdobramentos criativos inscritos por Pier Paolo Pasolini no diálogo entre o cinema e a literatura, encontramos um dos casos mais singulares de sua carreira em Teorema (1968), obra de dupla face — livro e filme — em que ele inaugura uma sincronia nas linguagens que não mais se limita a determinada leitura de influências entre as artes. Cinema e Literatura, aqui, formam uma aliança que suspende os conceitos correntes das Teorias da Adaptação, por originar um trabalho fincado, simultaneamente, nas duas linguagens; resultado possível por causa da intimidade já estabelecida pelo autor com ambas as formas de expressão.

Nossa observação a respeito do Pasolini escritor/cineasta, ou seja, do que levou seu ato criativo a carecer de mais do que um caminho semiótico para elaborar a alegoria que compõe Teorema, debruça-se sobre o motivo específico que ele desenvolve a partir dos significados conferidos à paisagem desértica, espécie de leitmotiv visual nuclear ao que ele constrói. Se através de sua filmografia pregressa já se identificava uma recorrência aos desertos enquanto espaços de mediação para os personagens e seus atos, é a partir de Teorema que estas regiões adquirem uma qualidade que excede a superfície de mero ambiente, o décor básico de uma encenação.

Ao abrir e encerrar sua narrativa na iminência do que as paisagens de areia podem romper dentro de uma interpretação diegética — pois os desertos tomam forma subitamente dentro de Teorema, em especial na experiência fílmica —, Pasolini lança mão de um diálogo que transcende o mero estranhamento típico do cinema de poesia. Como indicam os elementos paratextuais de Teorema-livro (epígrafe, apêndices, etc.), há uma relação assumida com outros imaginários mui caros ao autor, como é o caso da inspiração bíblica, habitualmente presente em suas criações (pela reverência ou heresia). Gênesis, Êxodo, Jeremias, são todos livros citados como referência original da parábola aqui delineada, vozes que esclarecem e completam a fórmula quase matemática traçada por Pasolini em Teorema. Através destas relações concretiza-se uma espécie de ‘imagem-palimpsesto’, derivada da literatura de segunda mão (GENETTE, 2010), a articulação de um fluxo intertextual que não se interrompe, e mais, que se atualiza sob o modelo da própria paisagem desértica, sempre móvel e errante, de uma instabilidade típica à poética particular de Pasolini.

É no deserto que vemos toda uma conjuntura política e social ser desconstruída, nele que o caráter espiritual se manifesta e acarreta, consigo, uma exploração da subjetividade como até este ponto de sua carreira Pasolini não ousara atravessar. Daí o objetivo desta reflexão estar centrado na possibilidade de se interpretarem os desertos de Pasolini como um ponto nevrálgico de sua produção, agentes que permitem uma releitura do autor tanto para consigo mesmo (seu próprio e significativo repertório de obras, literárias e cinematográficas), como para com seus referentes externos, validando e ampliando uma abrangência estética de maiores proporções.

Bibliografia

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GENETTE, G. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Belo Horizonte: Viva Voz, 2010.



GREENE, Naomi. Pier Paolo Pasolini: cinema as heresy. Princetown University, 1990.



JASPER, D. The sacred desert: religion, art and culture. Victoria: Blackwell, 2004.



NAZARIO, L. Todos os corpos de Pasolini. São Paulo: Perspectiva, 2007.



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