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  Título
Efeitos visuais e a criação de atmosferas no audiovisual contemporâneo
Autor
India Mara Martins
Resumo Expandido
De acordo com Gil temos duas grandes categorias de atmosfera: a fílmica e a dramática. A primeira é associada aos elementos plásticos porque diz respeito à forma da imagem fílmica, e aos elementos que constituem o seu espaço plástico. A segunda é a atmosfera dramática, porque é expressa essencialmente a partir da diegese. O que nos interessa abordar é a atmosfera fílmica, pois consideramos os efeitos visuais um dos elementos que constituem o espaço plástico.

No contexto da teoria da narrativa cinematográfica podemos considerar duas categorias principais de representação espacial: o espaço pró-fílmico, que se refere a “tudo que está em frente à câmera e fica registrado na película (Souriau, 1953, p. 8)”, ao campo, delimitado pelo quadro da câmera e construído através da intervenção da direção de arte, do diretor de fotografia e do diretor, que determina o enquadramento. Este é o espaço representado que se faz visível. A outra grande categoria seria o espaço não mostrado. O espaço da tela, onde se inscreve o significante visual resultante do pró-fílmico e o espaço do espectador, a sala de cinema, chamado por Jost e Gaudreault de espaço de consumação.

A noção de espaço fílmico também inclui aspectos que formam a “linguagem cinematográfica” e que são a base da decupagem do roteiro e também da composição visual de um filme. A escolha e a valorização de algumas destas características também determinam um pensamento cinematográfico (valorização do plano-sequência no Neorrealismo) e o estilo de um cineasta.

A nossa área de interesse é o espaço plástico, que em uma primeira instância é conceituado e abordado em sua materialidade pelo “production design” (ou direção de arte, como se denomina em algumas cinematografias) e concretizado pela direção do filme e pela direção de fotografia, da filmagem até o momento em que chega às telas. Além do enquadramento, que gera o campo e o fora de campo, o cinema pode reproduzir o espaço, fazendo com que o experimentemos através dos movimentos de câmera. “A relação da câmera com o espaço é, portanto, de uma importância muito grande no plano narrativo, já que, como notamos é graças à mobilidade da câmera (no duplo sentido de mobilizar, de fazer mexer) que o cinema desenvolveu boa parte de suas faculdades narrativas” (Jost & Gaudreault, 2009, p. 106).

Os efeitos visuais, que seriam uma derivação dos chamados efeitos especiais, estão inseridos neste contexto, pois hoje fazem parte da linguagem cinematográfica e muitas vezes são responsáveis pela construção do espaço cinematográfico. Basta lembrar as técnicas digitais usadas para criação de movimentos de câmera e espaços improváveis em filmes como Quarto do Pânico, Sem limites, Homem Aranha, etc.

Em Quarto do Pânico, por exemplo, foi utilizada a fotogrametria, técnica que mistura filmagens reais, cortes ocultos e simulações de movimentos feitos no computador. Em cinco longos minutos, a câmera percorre toda a casa: sai do despertador de Meg, no último piso, desce até o térreo e acompanha a odisseia de Burnham (Whitaker), que percorre os quatro andares em busca de uma brecha que torne possível o arrombamento. Para isso, a câmera passa pelo buraco de uma fechadura, atravessa paredes e grades e até entra por dentro da alça de uma cafeteira. A sequência exigiu nove noites de gravações e um ano inteiro de retoques digitais. Ela remete à montagem sem cortes usada por Hitchcock em “Festim Diabólico”, mas não se trata apenas de uma exibição de virtuosismo técnico; a cena serve para demarcar a geografia do casarão, evitando assim que o espectador se perca mais adiante na narrativa. A tomada ainda ressalta as grandes distâncias entre os aposentos e acentua a atmosfera espectatorial de ansiedade.

É neste sentido que buscamos entender a função dos efeitos visuais dentro da linguagem cinematográfica no contexto da tecnologia digital e dos novos paradigmas que ela impõe, investigando seu potencial para a criação de atmosferas.

Bibliografia

ALEKAN, Henri. Dês lumières e dês ombres, Paris, Le Sycomore, 1984.



ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora", São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1992.



AUMONT, J. A imagem. 2ª ed. São Paulo: Papirus, 1995.



BARSACQ, Leon. Les décor du film - 1895-1969, Paris, Henry Veyrier, 1985.



BORDWELL, D. On the history of film style. Cambridge, Mass., London: Harvard University Press, 2007.



DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: lógica da sensação, tradução equipe Roberto Machado, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.



DONDIS. Donis A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997.



GIL, Inês. A atmosfera no cinema: o caso de a sombra do caçador de Charles Laugthon entre o Onirismo e Realismo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Ministério da Ciência e do Ensino Superior, 2005.



JOST, François; GRAUDREAULT, André. A narrativa cinematográfica, Editora Unb: Brasília, 2009.