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  Título
Palavra e utopia e o epistolário vieirista como obra autobiográficare
Autor
Edimara Lisboa
Resumo Expandido
Em 2000, Manoel de Oliveira filmou Palavra e utopia, com o qual ganhou, naquele mesmo ano, o prêmio Bastone Bianco do festival de Veneza e mais um Globo de Ouro de Melhor Realizador. “O assunto versa sobre a vida do padre Antônio Vieira”, adianta o cineasta em sua Nota de intenções, “no entanto, os dados biográficos seriam de menor interesse se os desligasse dos sermões e cartas”. Propõe com isso um desafio aos estudiosos da relação cinema-literatura, sempre atentos a seus filmes, pois se são abundantes na história do cinema adaptações de romances contos e peças de teatro, como pensar, em termos de análise fílmica, uma obra que dialoga com toda a biobibliografia de um autor canônico de vasta produção, já que os recortes de textos literários presentes em Palavra e utopia não apenas precisam ser localizados como compreendidos em seu suporte e contexto de origem.

O historiador Prof. Dr. P. João Francisco Marques, da Universidade do Porto, um dos mais conhecidos estudiosos portugueses dos sermonários seiscentistas e assessor histórico deste filme, nos dá uma possível chave de leitura quando diz que “do enorme acervo documental que nos legou publicado retira-se muito de autobiográfico e muito do que há de mais incisivo e significativo na obra de Vieira. O filme Palavra e utopia foi buscar o seu perfil autobiográfico aos sermões, às cartas e aos outros escritos”. Uma cinebiografia que não estaria, portanto, interessada em revelar o indivíduo que se esconde por detrás do autor literário e sim em salientar os indícios autobiográficos espalhados pela obra de Vieira. Manoel de Oliveira preocupa-se em delimitar uma personagem coesa e coerente, amarrando o melhor possível os excertos que elegeu. Apesar dos três atores escolhidos para interpretá-lo quando jovem, maduro e velho – Ricardo Trêpa, Luís Miguel Cintra e Lima Duarte, respectivamente – o Antônio Vieira de Palavra e utopia consegue escapar à armadilha de voltar ao Vieira multifacetado e contraditório, lugar-comum de sua fortuna crítica.

Visto as dimensões desta comunicação, focalizaremos o epistolário de Vieira para demonstrar como Manoel de Oliveira recorta e organiza cinematograficamente passagens autobiográficas do escritor seiscentista. Por sua clara organização retórica e pela função que cumpria à época de divulgar ideias e propostas sociopolíticas, as cartas de Vieira não correspondem a um testemunho de si à posteridade, nem mesmo quando se referem a acidentes da sua biografia, pois são completamente filtradas pelo tipo social que ele representava (padre jesuíta) e pela maneira institucionalmente imposta com a qual se dirigia ao destinatário (tom grave e prudente). Quando as cartas são reunidas em livro, porém, os critérios ordenadores da sua pragmática de leitura e do acolhimento de seus temas mudam de registro, perdem sua função prática imediata e a significação de cada unidade passa a ser mais diretamente influenciada pelas demais unidades, transformam-se numa espécie de romance epistolar, do qual Vieira é o protagonista. Neste “romance”, o personagem-autor das cartas revela-se um mediador cultural entre colonizado e colonizador, senhores de engenho e chefes políticos, porta-voz responsável pela comunicação entre administradores reais dos principais países da época.

A nova mudança de suporte, dos livros para o filme, também promove mudanças significativas na pragmática de leitura e tratamento temático. Primeiro, porque Manoel de Oliveira não reproduz nenhuma carta na íntegra, mas coordena o processo de releitura, seleção de trechos e “retessitura” do texto vieirista. Segundo, porque esses trechos receberão a voz e inflexão de um ator (Trêpa, Cintra ou Duarte) e serão interpostos aos demais elementos do discurso fílmico. Neste processo, os traços autobiográficos das cartas são colocados em evidência, fazendo emergir um personagem Vieira muito humano e fragilizado diante da sociedade de seu tempo, caricaturalmente surda e muda.

Bibliografia

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CIDADE, H. P.e António Vieira. A obra e o homem. 2. ed. Lisboa: Arcádia, 1979.



FERREIRA, C. O. A dimensão imaginária da palavra – o quinto império em Palavra e utopia de Manoel de Oliveira. In: Atas do encontro regional da ABRALIC 2007. São Paulo: USP, 2007. CD-ROM.



HANSEN, J. A. Correspondência de Antônio Vieira (1646-1694): O decoro. In: Discurso, n. 31, 2000, p. 259-284.



PÉCORA, A. Máquina de gêneros. São Paulo: Edusp, 2001.



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