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  Título
Roteiristas na história do cinema: a trajetória de Peter Handke
Autor
Pablo Gonçalo Pires de Campos Martins
Resumo Expandido
A apresentação salientará o papel histórico desempenhado por roteiristas na consolidação de gêneros, estilos cinematográficos e nos diálogos intermidiáticos entre cinema, teatro e literatura. Abordaremos três entradas distintas.

A primeira refere-se aos manuais de roteiro que adotam uma metodologia vinculada a uma linguagem de autoajuda a qual, sintomaticamente, exclui uma organização e uma análise histórica dos trajetos de roteiristas na própria história do cinema. Se compararmos os primeiros manuais mais influentes, como o escrito por Epes Winthrop Sargent ainda em 1913, com os mais recentes, como os de Robert Mckee, lançado em 1997, percebemos mais semelhanças que diferenças. Além de possuírem um tom pragmático análogo ambos apenas ocasionalmente fundamentam suas colocações a partir de um conjunto de filmes ou de obras de roteiristas. Certamente não poderíamos exigir uma interpretação histórica de Sargent, quando o cinema ainda estava na sua terceira década e com momentos bem heterogêneos. Todavia, causa certo estranhamento perceber que os manuais mais recentes, feitos nas últimas décadas por Mckee, Syd Field, David Howard e Linda Seger – assim como toda reflexão sobre o roteiro – raramente incorporam a trajetória histórica de filmes ou de roteiristas.

Nosso segundo tópico de debate dirige-se à crítica do cânone cinematográfico e à sua influência na narrativa dos principais movimentos, autores e obras da história do cinema. Nessa história, tal como comumente contada, o roteirista obtém um papel marginal, quando não passa incólume frente uma plausível contribuição à gestação de estilos narrativos e cinematográficos. Além de problematizarmos a unicidade da noção de autoria no cinema, proporemos uma abordagem plural e heterogênea da configuração de momentos e movimentos cinematográficos. Nos ancoramos, nesse diapasão, no conceito de “estrutura de sentimento”, formulado por Raymond Williams, que propõe, para uma compreensão histórica do teatro, uma conjunção entre a dramaturgia, a encenação no palco e a recepção do público. Nossa proposta, portanto, passa por aproximar o roteirista ao papel desempenhado pelo dramaturgo, nessa comparação entre o cinema e o teatro.

Nosso terceiro e último recorte apresenta um estudo de caso. Escolhemos, para tanto, a parceria entre o roteirista Peter Handke e o diretor Wim Wenders que costuraram uma longa colaboração sedimentada nos filmes O medo do goleiro diante do pênalti (1972), Movimento em falso (1975) e As asas do desejo (1987). Pretendemos mostrar como houve uma influência de mão dupla nos caminhos estéticos desses artistas. De um lado, Handke migrou seus experimentos de linguagem na poesia, na prosa e nas suas peças pós-dramáticas para um formato cinematográfico. Por outro lado, a obsessiva busca de Wenders por uma visualidade narrativa e autônoma acabou por influenciar as inquietações literárias do escritor Peter Handke.

A aposta nas paisagens, como um gesto estético, seria uma ponte possível à compreensão da mútua influência entre Peter Handke e Wim Wenders. Tentaremos mostrar como as paisagens teatrais, pós-dramáticas, e literárias na cena cultural da Alemanha dos anos setenta dialogaram com as experimentações do cinema novo alemão e com os filmes de Wim Wenders.

A análise da colaboração entre Handke e Wenders, portanto, tentará argumentar sobre a possibilidade de realizarmos trabalhos históricos que levem em conta parcerias entre roteiristas e diretores, as quais, por sua vez, culminam em obras dramatúrgicas e cinematográficas paralelas. Por esse pequeno estudo de caso, tentamos sugerir a necessidade de uma historicidade do roteiro. Negando, primeiramente, a sua naturalização, tal como realizada pelos manuais de roteiros mais conhecidos. Também propondo uma aproximação do roteirista com o dramaturgo, já que ambos influenciariam na consolidação de estruturas de sentimento nas linguagens em que atuam.

Bibliografia

BRADY, Martin & LEAL, Joanne: Wim Wenders and Peter Handke: collaboration, adaptation, recomposition. Editions Rodopi, Amsterdam, 2005.



FLUSSER, Vilem: escrita: há futuro para a escrita. Anablume Editora, Rio de Janeiro, 2010.



HANDKE, Peter: Prosa. Gedichte. Theaterstücke. Hörspiel. Aufsätze. Shurkamp, Frankfurt, 1971.



KAEL, Pauline: Criando Kane e outros ensaios. Editora Record, Rio de Janeiro, 2000.



McKEE, Robert: Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Arte e Letra Editora, Curitiba, 2006.



NORMAN, Marc: What happens next: A history of american screenwriting. Harmony books, Mew York, 2007.



PAECH, Joachim: Literatur und film. J. B. Metzler, Stuttgart, 1997.



SARGENT, Epes Winthrop: Technique of the photoplay. Nabu Press, New York, 2010.



WILLIAMS, Raymond: Drama em cena. 1991. Cosac Naify, São Paulo, 2010