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  Título
La hora de los hornos e Puntos suspensivos: estética e política
Autor
Estevão de Pinho Garcia
Resumo Expandido
Na Argentina, por volta de 1968, o Nuevo Cine Argentino ou a Generación del Sesenta demonstrava visíveis sinais de esgotamento. O que antes era jovial e renovador, agora estava sendo considerado pelos mais jovens como velho e institucionalizado. Frisamos que em 1968, a ditadura do general Juan Carlos Onganía, implantada dois anos antes, cria, por intermédio do decreto-lei 18.019, o Ente de Calificación Cinematográfica, temível órgão de censura, que mergulha de vez o cinema argentino na mediocridade estética, tornando a produção independente – e, muitas vezes, fora de qualquer meio oficial, tanto em termos de produção quanto de difusão – o único procedimento para um cinema mais vigoroso. Assim, é nesse contexto, no âmbito deste cinema “independente” ou declaradamente não comercial, que surge uma nova geração de realizadores, a do chamado Underground, voltada à experimentação estética. Um pouco antes dela, aparecia a corrente do cinema de intervenção política ou cinema militante, protagonizados pelo Grupo Cine Liberación, capitaneado por Fernando Solanas e Octavio Getino, e pelo Grupo Cine de la Base, sob o comando de Raymundo Gleyzer.

O embate logo travado entre os que desejavam fazer do cinema um instrumento da política e os que almejavam fazer do cinema sua própria política adquire no contexto argentino contornos especiais. Deste modo, dentro do que entendemos como cinema Underground argentino podemos situar dois núcleos de amizade que se relacionam entre si: o Grupo de los 5, composto pelos cinco realizadores Alberto Fischerman, Ricardo Becher, Néstor Paternostro, Raúl de la Torre e Juan José Stagnaro – sendo possível ainda acrescentar o realizador Hugo Santiago – e a produtora CAM (sigla que significa Cine Argentino Moderno), de Julio César Ludueña, Miguel Bejo e Edgardo Cozarinsky.

De este modo, objetivamos analisar o embate entre o cinema de intervenção política e o Underground: suas proposições ideológicas, discursivas, estéticas e estilísticas, por meio do estudo de dois filmes. A saber: La hora de los hornos (Fernando Solanas e Octavio Getino, 1968) e Puntos suspensivos (Edgardo Cozarinsky, 1971). Estamos aqui diante de dois filmes extremamente políticos, que compartilham o mesmo tema: a realidade argentina, porém, que operam distintas estratégias de abordagem. No primeiro encontramos um discurso didático-pedagógico orientado a “convencer” o espectador e uma significativa seriedade a respeito dos temas e de “como” eles são mostrados ao longo do filme. No segundo, percebemos presente o humor, a ironia, o escracho, a autoreflexividade, a forma não mais subordinada ao conteúdo e uma postura mais agressiva diante do espectador. Mais do que persuadi-lo para a sua causa, Puntos suspensivos quer que ele se sinta incomodado.

Puntos suspensivos desmonta de tal forma a crença na autoridade e idoneidade do discurso documental, que é impossível não ver nesta estratégia uma crítica direta ao tipo de cinema propagado por La hora de los hornos. O filme de Cozarinsky, com muito humor, questiona o modelo de cinema defendido pelo cinema militante e propõe uma nova via de interpretação do cinema e da realidade social e cultural latino-americana. Por isso, nos cabe a pergunta: seria Punto suspensivos uma espécie de paródia a La hora de los hornos?







Bibliografia

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OUBIÑA, David. Vanguardia y ruptura en el cine alternativo de los años 70 In KRIEGER, Clara (Org.). Innovaciones estéticas y narrativas en los textos audiovisuales. Cuadernos de Cine Argentino, n. 3, Buenos Aires, 2005.



___________. El silencio y sus bordes, Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2011.



SARLO, Beatriz. La máquina cultual, maestras, traductores y vanguardias, Havana: Casa de las Américas,2001.



SOLANAS, Fernando; GETINO, Octavio. Cine, cultura y descolonización. Buenos Aires: Siglo XXI, 1973.



TIRRI, Nestor (Org.). El Grupo de los 5 y sus contemporáneos: pioneros del cine independiente en la Argentina (1968-1975). Buenos Aires: Secretaría de Cultura, 2000.