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  Título
O novo cinema "europeu" de Woody Allen
Autor
Marcos César de Paula Soares
Resumo Expandido
Os anos de 1967-1970 marcam uma crise profunda da produção cinematográfica norte-americana (a maior de sua história), que só será superada com uma reorganização geral do aparato industrial que marca o fim do antigo sistema de estúdio. Nesse quadro, se intensificam as relações entre produtoras americanas e europeias, com os Estados Unidos investindo em filmes europeus para suprir parcialmente a queda de produtividade que deixava os setores de distribuição e exibição locais à míngua.

De outro lado, a nova geração de cineastas "rebeldes" (Coppola, Scorsese, Altman, Penn, entre outros) nos Estados Unidos vai se aproveitar de modo frutífero da (re)descoberta dos autores europeus do período (Godard, Truffaut, Fellini, Antonioni, etc.). Woody Allen, que inicia sua carreira de cineasta justamente nesse período, se situa de modo peculiar nesse quadro, estabelecendo uma confluência produtiva entre a tradição da comédia norte-americana (Chaplin, Keaton, os irmãos Marx, Bob Hope, a "stand-up comedy") e o autorismo europeu (especialmente na figura de Bergman).

Entretanto, sua produção recente marca uma reviravolta curiosa nesse quadro: não apenas o empréstimo de temas ou formas artísticas europeias, mas a busca de financiamento fora dos Estados Unidos (na França, Espanha, Inglaterra e Itália) depois da série de fracassos comerciais que marcaram sua produção do fim dos anos 90. O sucesso crítico (e, em parte, comercial) de Match Point parecia indicar um novo nível de energia criativa.

Muitos de seus filmes recentes tematizam de modo indireto essa situação ao enfocar os problemas de um personagem norte-americano que busca a solução de seus problemas na Europa (notadamente em Vicky, Cristina, Barcelona, em Você vai conhecer o homem de seus sonhos e, mais recentemente, em Meia-noite em Paris, o maior sucesso comercial de sua carreira), retomando um tema importante da literatura norte-americana desde Henry James.

A busca dessa solução e o encontro de seus limites e paradoxos se transformaram, assim, num assunto central desses filmes, se alimentando indiretamente de repercussões profundas que essas questões têm no quadro ideológico atual: pois uma das questões mais candentes da atualidade é justamente pensar se a Europa pode fornecer uma solução ou uma alternativa mais "humana" ao capitalismo norte-americano. Esta fala pretende partir de uma análise do filme Meia-noite em Parispara discutir o cinema "europeu" de Woody Allen.

Haveria uma ruptura entre as duas "fases" do diretor? A manipulação do foco narrativo do filme sugere, afinal, uma perspectica apologética ou crítica em relação aos dilemas, soluções e enganos do protagonista? Qual seria, enfim, o conteúdo de verdade da proposição de que a Europa, em princípio menos comercial e mais afeita às artes, pode oferecer uma alternativa viável em relação aos problemas que caracterizam a produção cultural e cinematográfica contemporânea?

Bibliografia

ALLEN, Michael. Contemporary US cinema. London & New York: Longman, 2003.



BERLAND, Alwyn. Conduct and culture in the novels of Henry James. Cambridge & New York: Cambridge University Press, 1981.



GIRGUS, Sam B. Films of Woody Allen. Cambridge & New York: Cambridge University Press, 1993.



LAX, Eric. Conversations with Woody Allen. New York: Alfred A. Knopf, 2007.



LEWIS, Jon (ed.). The new american cinema. Durham & London: Duke University Press, 1998.



NOVELL-SMITH, Geoffrey & Ricci, Steven. Hollywood and Europe - economics, culture, national identity: 1945-95. London: BFI Publishing, 1998.