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  Título
Os famosos e os duendes da morte: processo de criação de um roteiro
Autor
Vitor Vilaverde Dias
Resumo Expandido
Durante o processo de realização de um filme, o roteiro é comumente enxergado como um guia para as diferentes áreas técnicas debruçarem-se na tentativa de extrair informações para produzir o que será visto nas telas. Talvez por conta disso, diversos manuais e cursos de criação de roteiro se espalham pelas livrarias e faculdades de cinema. Tais manuais são focados, sobretudo, no ensino de uma estrutura rígida e cheia de regras, sejam de conflitos, clímax ou desenvolvimento de personagens.

Contudo, é sabido que desde o inicio do século XX, escritores eram “emprestados” da literatura para desenvolver argumentos para o cinema, começando assim um diálogo entre as duas artes. Tal movimento, também era inverso, uma vez que a literatura se atualizava buscando elementos próprios da imagem, como a simultaneidade, resultando em livros extremamente imagéticos, nos quais a narrativa parece ser por vezes, dividida em sequencias ou planos. Sabendo disso, fica difícil de acreditar que regras de estrutura sejam aplicáveis a todo e qualquer roteiro em desenvolvimento, uma vez que o que estaria em jogo seriam as necessidades de uma obra artística e as vontades e expressões de seus criadores, que não só acompanhariam a evolução tecnológica, mas também as percepções de espectadores e leitores, que certamente variam com o tempo.

Então, partindo do objetivo de investigar o processo de criação de um roteiro cinematográfico no cinema brasileiro contemporâneo, adota-se o conceito de redes de criação, seguindo uma noção de movimento. Por redes de criação entende-se o conceito estabelecido por Cecília Almeida Salles:

“Devemos pensar, portanto, a obra em criação como um sistema aberto que troca informações com seu meio ambiente. Nesse sentido, as interações envolvem também as relações entre espaço e tempo social e individual, em outras palavras, envolvem as relações do artista com a cultura, na qual está inserido e com aquelas que ele sai em busca. A criação alimenta-se e troca informações com seu entorno em sentido bastante amplo. Damos destaque, desse modo, aos aspectos comunicativos da criação artística (SALLES, 2006, p.32)”.

Sendo assim, busca-se estabelecer o roteiro cinematográfico como um “entre lugar” que fica no caminho entre cinema e literatura, parte da palavra para se tornar imagem e, se torna uma obra completa dentro do movimento que resultará em outras obras (filmes, livros, blogs, vídeos e diversas outras possibilidades), pensando aqui que esse conteúdo poderá ser transportado para diferentes plataformas.

Como exemplo desse processo de criação em rede, é trazido o roteiro de Os famosos e os duendes da morte, escrito por Esmir Filho e Ismael Caneppele e publicado no ano de 2010. O roteiro, nesse caso, é o “entre” o filme dirigido por Esmir e lançado em 2009, e o livro escrito por Ismael e lançado em 2010. Nesse caso, ignoramos a ideia de adaptação, para trabalhar com que o poderíamos chamar de correspondência de linguagens, pois as diferentes obras buscam dentro de seus suportes (livro e filme, primeiramente) maneiras de transmitir as questões exigidas por esse projeto que se autodenomina sensorial.

Um filme, que conta a história de jovens que vivem na angústia de “pular fora” da pequena cidade no Rio Grande do Sul, onde vivem, e expressam essa angústia através da internet, que além de ser fundamental na narrativa é também durante o processo de criação, pois outros elementos somam-se ao percurso e passam a contribuir para o que aparecerá nas telas: seja a atriz, que empresta além de sua imagem, suas fotografias (que permanecem disponíveis para acesso, mesmo após o filme ser lançado); a música; ou os vídeos, desenvolvidos por diretor, ator/escritor e atriz e agrupados num canal do Youtube, nas páginas dos livros (endereços eletrônicos escritos no meio da narrativa), e no filme, reiterando assim, o que chamamos de rede de criação, num eterno movimento que busca sempre se adaptar a novas mudanças de percepção.

Bibliografia

BENJAMIN, W. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 3ª Ed, 1985.



CANEPPELE, I. Os famosos e os duendes da morte. São Paulo: Iluminuras, 2010.



CARRIERE, J. C. A linguagem secreta do cinema. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.



____; BONITZER, P. Prática do roteiro cinematográfico. São Paulo: JSN, 1996.



CRUZ, J. L. Roteiro: Obra invisível. Concinnitas (UERJ), Rio de Janeiro, v. 4, n. 4, p. 136-157, 2003.



DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: CosacNaify, 2005.



FIELD, S. Manual do roteiro, os fundamentos do texto cinematográfico. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.



FILHO, E. Os famosos e os duendes da morte. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.



FIGUEIREDO, V. L. F. Roteiro, literatura e mercado editorial: o escritor multimídia. Ciberlegenda (UFF), v. 17, p. 1, 2007.



MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. SP: Cultrix, 1964.



SALLES, C. A. Redes da criação. Vinhedo, SP: Horizonte, 2006.