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  Título
Lembrança e esquecimento do presente no documentário de Jia Zhang-ke
Autor
Isaac Pipano Alcantarilla
Resumo Expandido
As imagens documentais constituíram um lugar central nas políticas da memória, ao representarem por meio da oralidade, das práticas autobiográficas, dos testemunhos, dos arquivos e dos mais diversos esforços memorialísticos, um amplo espectro de acontecimentos, escândalos, verdades controversas, mitos e mártires. Mas, também, ao trazerem à luz a memória dos mortos, dos esquecidos, dos torturados, dos não ditos do passado, às margens da história oficial das nações, investindo nas rupturas temporais e atribuindo ao passado uma potência criadora. Mas, e quando o que a memória parece recuperar, antes de tudo, é o presente no instante em que se esvai? Como a referência mil vezes repetida e, ainda assim, não desgastada, de Benjamin sobre o Angelus Novus do pintor Paul Klee. A imagem do anjo que tem o rosto dirigido para o passado, asas abertas, olhos escancarados, assistindo à catástrofe única que se dispersa sob nossos pés, desejoso de juntar os fragmentos e acordar os mortos, mas combalido pelo progresso que o lança inevitavelmente para o futuro. Seria esse, então, o lugar das imagens documentais de Jia Zhang-ke? Fixadas no presente, com os olhos voltados para os fragmentos que já se estendem ao chão, impossíveis de serem recuperados, atentas em direção ao progresso do novo mundo, da nova China?

A partir de oito depoimentos de trabalhadores envolvidos com a fábrica “420”, uma estatal produtora de munições e equipamentos bélicos, prestes a ser demolida para ceder lugar a um complexo habitacional de alto luxo, o filme 24 City acompanha progressivamente o desmonte da fábrica. As falas se voltam às memórias do passado, à existência do presente e às projeções do futuro. Ao menos quatro modos de transmissão de experiências são trazidos pelo filme: testemunhos reescritos interpretados por personagens reais; testemunhos autênticos interpretados por atrizes; testemunhos sintetizados e interpretados por atrizes e histórias inventadas.

A presunção de veracidade no documentário, vinculada ao enunciado - não à pretensão de reproduzir o real sem distorções, mas à falta de distanciamento entre a experiência e o narrado, é abalada por imagens que perturbam os regimes de autorreferencialidade e o atrelamento da voz que narra à experiência vivida, nas auto-mise-en-scène documentais, que hora se revelam ficcionalizantes. De modo que já não se trata da apreensão de uma identidade real ou fictícia de um personagem, por meio de seus aspectos subjetivos e objetivos. Se, por um lado, a presença ficcional aqui está radicalizada nas histórias inventadas encarnadas pelas atrizes, a obra de Jia como um todo compartilha a potência de forjar, como fingeri, suas imagens com o real. Pensar que as imagens são híbridas é assumir-se, portanto, em cooperação com a noção de que a inserção da fabulação como um dado exterior destrona o lugar do verídico, ao invés de questioná-lo. Por não tomá-la como potência, legitima-se a fabulação como célula de contaminação que embaça a realidade, nos afastando daquilo que haveria de ser a função primeira e mais legítima herdada pelo documentário: preservar a “pureza” do real.

Apostamos, em oposição, no modo como as imagens de Jia Zhang-ke não costuram as fendas do esquecimento e as lacunas entre vivências e lembranças. Tais memórias parecem não visar à recuperação total, à permanência de um mundo que escapa continuamente à imagem, e irá sempre escapar. Sem a pretensão de encontrar a origem do acontecimento, o lugar primeiro num ponto exato passado, fixado na origem, fazendo com que todo o presente retorne a ele e encontre desse modo suas resoluções. Perde-se o acúmulo que leva à reconstrução total, perde-se a solidez da história, perdem-se certos lugares de legitimação. Em troca, mantendo-nos no jargão de Benjamin, escova-se a história a contrapelo, recuperando os passados que se atualizam no presente daqueles que não figuram na história, e tanto faz que eles sejam personagens reais ou sujeitos inventados.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. (1994), Sobre o conceito de história. In Obras escolhidas 1 - magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. p. 226.



FIANT, Antony. (2009), Le cinéma de Jia Zhang-ke. Presses universitaires de Rennes.



GUIMARÃES, César. (1997), Imagens da memória: entre o legível e o visível. Belo Horizonte: Ed. UFMG.