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  Título
Anotações sobre a exibição dos filmes da Comissão Rondon
Autor
Ana Lucia Lobato de Azevedo
Resumo Expandido
Em Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro, Jean-Claude Bernardet aponta para a inexistência de uma história da exibição de filmes no Brasil, que, no seu entender, se deve, sobretudo, a um investimento ideológico na fase de produção, momento que inclusive é erigido como marco do “nascimento” do cinema brasileiro, por alguns dos autores que trataram dos primeiros tempos.

Esta proposta visa contribuir para o conhecimento da exibição do cinema brasileiro, concentrando-se nos filmes produzidos pela Comissão Rondon e Inspetoria de Fronteiras, entre 1912 e 1940, os quais foram em sua quase totalidade dirigidos pelo Major Thomaz Reis, chefe da Seção de Fotografia e Cinematografia da CR. Há um expressivo investimento na exibição desses filmes, o que envolve uma série de ações, assumidas, principalmente, pelo Major Reis, que se coloca à frente não só da realização dos filmes - envolvido com direção, fotografia e montagem – como também de gestões visando a exibição dos mesmos. Dessa atividade, o Major Reis presta contas a seus superiores através de relatórios, nos quais menciona as cidades em que os filmes foram exibidos, rendas obtidas nas projeções, percentuais que consegue negociar com os empresários, relatórios esses que se constituirão em importante fonte de dados para o trabalho ora proposto.

Pode-se perceber nesses relatos, o firme propósito por parte dos responsáveis pelo trabalho desenvolvido pela Seção de Fotografia e Cinematografia não só de realizar uma extensa cobertura fotográfica e cinematográfica dos trabalhos, mas também de exibir os filmes produzidos, cuja realização se devia, dentre outras coisas, à necessidade de prestar contas à sociedade das atividades levadas a cabo pela CR, o que contribuiria para o fortalecimento das mesmas, sendo, portanto, fundamental que fossem vistos pelo maior número de pessoas possível.

Os filmes realizados pela Comissão Rondon e Inspetoria de Fronteiras, em função de suas temáticas, de registrarem as populações indígenas, aspectos da fauna e da flora, de flagrarem realidades longínquas, “exóticas” e pouco conhecidas da população em geral, bem como de sua qualidade atraíram a atenção de um público variado, tendo sido exibidos tanto em circuitos comerciais, quanto em contextos científicos, caso da exibição de Os Sertões, no Carnegie Hall, de Nova York, em 1918, sob os auspícios da Sociedade Americana de Geografia. Tal sessão, além da oportunidade de apresentar o filme à comunidade acadêmica, permitiria também atrair a atenção das empresas distribuidoras para o filme, abrindo caminho para uma possível negociação e colocação do mesmo no mercado cinematográfico norte-americano.

No que concerne à colocação dos filmes no circuito exibidor brasileiro, é importante salientar que, enquanto viajava para filmar, Thomaz Reis dedicava-se, tanto a articular projeções de caráter não comercial quanto a negociações com possíveis exibidores dos filmes da CR. Não há, nesse caso, a existência de um distribuidor intermediando o processo, o que permitia que os produtores auferissem um percentual mais expressivo do valor arrecado, dividido apenas entre produtor e exibidor.

A proposta deste trabalho é mapear as informações disponíveis a respeito da exibição dos filmes da CR, com foco nas estratégias adotadas pela Seção de Fotografia e Cinematografia da CR para que seus filmes chegassem ao público - destacando-se, nesse sentido, a importância da estrutura do órgão responsável pela produção dos filmes, e a maneira como a mesma foi mobilizada -, na identificação dos filmes que efetivamente chegaram ao circuito exibidor, no número de espectadores alcançados pelas projeções realizadas, no circuito em que os filmes forem exibidos. Com base nesse levantamento inicial, pretendo apontar possibilidades de leitura e desdobramentos analíticos da questão.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do cinema brasileiro. São Paulo: Annablume, 1995.

LASMAR, Denise Portugal. O acervo imagético da Comissão Rondon: no Museu do Índio 1890-1938. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2008.

LOBATO, Ana. Viajando pelas fronteiras do Brasil. In: PAIVA, Samuel e Schvarzman, Sheila (orgs.). Viagem ao cinema silencioso do Brasil. Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

______. Os ciclos regionais do norte e nordeste (1912-1930). In: RAMOS, Fernão. História do Cinema Brasileiro. São Paulo: Art Editora, 1987.

PAIVA, Samuel e Schvarzman, Sheila (orgs.). Viagem ao cinema silencioso do Brasil. Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

TACCA, Fernando Cury de. A imagética da Comissão Rondon: etnografias fílmicas estratégicas. Campinas: Papirus, 2001.