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  Título
Sexo sobrenatural: reflexões sobre o gênero de horror erótico
Autor
Leopoldo Tauffenbach
Resumo Expandido
Este trabalho objetiva a investigação das origens e elementos constitutivos que caracterizam obras do chamado horror erótico, aplicando o termo para definir um gênero cinematográfico específico, dotado de estética particular. Para tanto, serão utilizados como exemplo três filmes que, em algum momento histórico, foram identificados como representantes do gênero: La Rose Ecorchée (1969), dirigido por Claude Mulot, Les Possédées du Diable (1974), do diretor espanhol Jesus Franco, e a produção brasileira Excitação Diabólica (1982), de John Doo.

No final dos anos 60, elementos eróticos eram introduzidos gradualmente nas produções cinematográficas francesas. Pouco tempo antes, mas de maneira ainda clandestina, surgiram as primeiras obras de sexo explícito. A demanda do público, principalmente em Marselha, levou alguns produtores locais a criar o hábito de inserir cenas explícitas em filmes comuns (TOHILL; TOMBS, 1995, p.53). Com o sucesso das produções eróticas, muitos cineastas começaram a se aventurar por esse caminho, testando as possibilidades de outros gêneros receberem algumas doses de erotismo. Ainda que questionável, o filme de Claude Mulot – que depois ficaria conhecido pelas produções pornográficas – La Rose Ecorchée foi vendido ao público dos Estados Unidos como o primeiro filme de horror erótico, como anunciava seu cartaz. Inspirado no filme Les Yeux Sans Visage (1959), de Georges Franju, La Rose Ecorchée mostra-se tímido ao tentar equilibrar os elementos de horror com os elementos eróticos, reduzidos à nudez das personagens. Entretanto, a beleza da nudez serve como importante contraponto à deformidade física da personagem principal, uma mulher outrora bela, deformada por um acidente. O erotismo, aqui, surge como uma lembrança amarga, estimulando o instinto assassino e o desejo de destruição da personagem que não pode mais desfrutar dos prazeres da beleza física.

Cinco anos mais tarde o prolífico cineasta espanhol Jesus Franco realiza uma de suas obras mais expressivas, equilibrando com maestria elementos eróticos e de horror. Em Les Possédées du Diable, a personagem Lorna, uma espécie de Mefisto feminino, tenta cobrar uma dívida de um homem de negócios que havia feito um pacto com ela anos antes. O pagamento exigido é sua filha de 18 anos, mas ele se recusa a cumprir o acordo. Lorna então passa a atormentá-lo, despertando na filha um desejo sexual incontrolável, além de ferir sua mulher fazendo-a parir pequenos crustáceos. Diferente da obra de Mulot, o sexo é o ponto central da trama de Franco, apresentado tanto como elemento de prazer e símbolo vital, como um terrível veículo punitivo. Enquanto a esposa sofre física e psiquicamente com os crustáceos que saem de sua genitália, a filha sofre igualmente com desejos luxuriosos incontroláveis, aludindo às fases iniciais e finais da sexualidade feminina como eventos naturalmente horroríficos.

No Brasil, o diretor John Doo dedica quase toda a sua carreira à produção de filmes de horror erótico, como ele mesmo os classificava. Não existem registros que digam quais teriam sido as principais fontes de inspiração do cineasta, mas nota-se em seus filmes uma fórmula muito semelhante à usada por Jesus Franco em seus filmes nos anos 70. No filme Excitação Diabólica vemos uma prostituta velha usar de poderes sobrenaturais para vingar-se de dois homens que a atacaram por diversão. Assumindo a forma de jovens moças, ela vai controlando os homens por meio do sexo, levando-os gradualmente à loucura. Sem apelar para elementos grotescos oriundos do sexo explícito, o filme de Doo evoca aspectos sobrenaturais clássicos, como a possessão demoníaca, para justificar a inserção de elementos eróticos. Ao final nota-se nestes filmes aqui expostos, como em muitos outros, que diferente das produções de horror que se utilizam do sexo como elemento isolado de atração do público, o chamado horror erótico nos apresenta o sexo como algo perigoso e sinistro, capaz de causar repulsa e provocar o medo.
Bibliografia

AGUILAR, Carlos. Jess Franco: el sexo del horror. Firenze: Glittering Images,1999.

AUMONT, Jacques. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê? – uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese de doutorado. Campinas: Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, 2008.

ECO, Umberto. A história da feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007.

MCCARTY, John (Ed.). The sleaze merchants: adventures in exploitation filmmaking. New York: St. Martin’s Griffin, 1995.

PUPPO, Eugênio (Org.). Horror no cinema brasileiro. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2009.

TOHILL, Cathal; TOMBS, Pete. Immoral tales: european sex and horror movies 1956-1984. New York: St. Martin’s Griffin, 1995.