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  Título
Hollywood no Brasil
Autor
Roberto Marchon Lemos de Moura
Resumo Expandido
Sempre foi necessário, para pensar a produção de cinematográfica no Brasil, que se considerassem suas relações com o cinema internacional, e particularmente com suas empresas hegemônicas, mas isso hoje é inevitável. Se no passado recente, durante os governos militares, o Estado brasileiro foi o fator estruturante da atividade aqui, hoje esse papel pertence às produtoras/distribuidoras norte-americanas, envolvidas diretamente com a produção, distribuição e exibição dos filmes realizados no país.

Hollywood, sempre hegemônica no circuito exibidor brasileiro, contra quem ciclicamente conflitavam produtores e realizadores locais reunidos em frente única contra o inimigo comum, apesar de seus antagonismos operacionais e ideológicos - episódios que atravessam uma história que surpreendentemente chega à firme aliança contemporânea das produtoras/distribuidoras norte-americanas com as empresas locais. Como entender e considerar criticamente, a partir dos interesses não do setor cinematográfico, mas do país, essa associação de atividades e interesses?

A história de Hollywood se entrelaça com a história dos Estados Unidos. Depois da segunda guerra mundial o sistema de estúdios é ferido de morte com a perda pelas majors de suas redes de salas no mercado interno e frente à concorrência com a televisão, crise que leva à perda da autonomia daquelas empresas que passam para o controle de conglomerados.

Sempre reunidas em torno da MPAA nos anos 80 elas se reciclam e retomam sua força, graças à administração Nixon, o blockbuster e sua distribuição verticalizada, os canais de cinema do cabo e o home vídeo. Hoje, quando a renda com o entretenimento caseiro caiu radicalmente com a pirataria, as majors tentam criar a Internet paga, continuam distribuindo seus filmes na televisão aberta e no cabo, enquanto no circuito cinematográfico adota o multiplex, se digitaliza e procura se sofisticar com o 3D e o 4D, para garantir suas rendas.

Enquanto isso, depois de tentativas de mimetizar a Hollywood, chegamos ao Brasil à experiência de um cinema moderno, que viceja mesmo depois da sua fase heroica, com a cooptação de suas lideranças pelo projeto estatal sob os militares, permitindo que os filmes cheguem a outros patamares de custo e distribuição, experiência que se esgota com a paralisação determinada pelo sombrio governo Collor de Mello.

Ao longo dos anos 90 é retomada a produção local, agora garantida pelo conceito da “renúncia fiscal”. Desde o primeiro momento se destacariam como principais financiadores de filmes através das leis as grandes empresas estatais brasileiras. No entanto, a lei prevê que as distribuidoras internacionais podem dispor de 70% do imposto sobre suas remessas de lucro para as matrizes para a produção de “filmes brasileiros”.

Assim o mercado brasileiro é hoje ocupado principalmente pelos blockbusters, restando uma parte para filmes de orçamentos menores, incluindo os nacionais garantidos pelas cotas. Com a legislação de reserva de mercado associada à de renúncia fiscal para a produção dos filmes, o governo responde a exigência da sociedade da existência de uma cultura testemunhal e identitária. No caso do cinema essas leis são o resultado da conscientização trazida pelos movimentos cinematográfico do pós-guerra sobre a hegemonia excessiva exercida pelo cinema de Hollywood e da importância de uma produção local. É essa a proposta que está sendo completamente redefinida pela associação com as majors, já que era exatamente na busca de garantir um espaço justaposto a de seus filmes que se manifestava a legislação. Mas afinal quem são exatamente esses senhores e o que eles estão promovendo com suas intensas atividades cinematográficas no país? Quanto custa isso? E vamos ao que interessa: que tipo de cinema eles nos propõem?

Bibliografia

BORDWELL, David. The way Hollywood tells it. Los Angeles, California: University of California Press, 2006.