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  Título
Lost e a indeterminação de gênero visando a manutenção da canonicidade
Autor
Glauco Madeira de Toledo
Resumo Expandido
"(...) quanto mais avançamos na direção do futuro, mais o hibridismo se mostra como a própria condição estrutural dos produtos culturais.” (MACHADO, 2003, pp.3-4)

As produções seriadas geralmente permitem que se obtenha um contato prolongado com o universo ficcional através de material inédito, o que prolonga o prazer da audiência. É comum que um seriado tenha como premissa a “possibilidade de acompanhar um mesmo personagem em aventuras estruturalmente repetitivas (...) [para] remeter o espectador a apreciar as variações possíveis de uma mesma fórmula” (CAPUZZO, 1990, p.20), mas muitos seriados trabalham com público eventual, o que é mais fácil quando se supõe que o público todo esteja assistindo ao programa pela televisão, no fluxo.

Entretanto, o site da emissora de LOST permite acessar legalmente o vídeo de qualquer capítulo já exibido. Praticamente todos os episódios que precisam de informações fornecidas anteriormente para serem compreendidos se iniciam com “Previously on Lost”, um apanhado das cenas pertinentes do seriado todo, similar ao que as telenovelas brasileiras faziam na década de 1980, que aqui se chamava de “cenas dos últimos capítulos”. Em LOST, reassistir é tão importante quanto assistir. Esse é um importante argumento de vendas diretas de DVD.

A história de LOST se passa em um cenário de ilha deserta e tem como personagens os sobreviventes do acidente de avião. Logo de início, 14 personagens estão entre os “principais” e não há a clara distinção de “protagonistas” e “coadjuvantes” entre eles. A primeira temporada inteira de LOST (25 episódios) se passa sem que se veja sequer um antagonista do grupo. Se a princípio o número grande de protagonistas pode dar a ideia de que é difícil acompanhar tudo, ou entender em profundidade o que se passa com os personagens que interessam mais a cada espectador em específico, por outro lado a variedade de tipos presente nessa 'ilha de Babel' acaba por facilitar um ajuste pessoal à série. De certa forma, é possível escolher por quem se vai “torcer” no decorrer da trama.

É preciso conhecer os gêneros da televisão para depois subvertê-los. A subversão dos gêneros é o caminho para descobrir formatos inéditos. (ARONCHI DE SOUZA, 2004, p.22)

O filme Náufrago (Casta Away, 2000), que é declaradamente fonte de inspiração de J. J. Abrams para a criação da série, é catalogado pelo IMDB como obra de aventura e drama. No filme, o avião em que estava um executivo cai em uma ilha deserta e ele é forçado a viver ali por anos, tentando encontrar uma maneira de escapar da ilha.

Survivor, outra referência declarada, é um reality show de sobrevivência em lugar inóspito, no qual se formam grupos de aliados e inimigos entre os participantes, entre os quais há muita variação de personalidades e tipos físicos.

LOST junta essas duas referências de gênero sintático, ou seja, da forma e dos estereótipos, e as conjuga com outras referências de gênero semântico, ou de conteúdo.

A ficção científica e o psiquismo dividem o tempo de tela e as opiniões sobre a obra. Há diversos elementos indicativos de que na ilha existe um monstro, mas muito pouco foi revelado até a quinta temporada a respeito da procedência desse monstro. Se em dados momentos ele parece atender à ciência, em outros parece atender ao karma.

Essas indeterminações de protagonismo e de gênero são intencionais e visam manter o discurso que permeia a série, que a mantém canônica. O conceito de canonicidade ficcional aqui é utilizado como sinônimo de discurso unificado e coeso, ou seja, a série pretende confundir e o faz em todas as instâncias, sem causar contradição entre forma e conteúdo. Assim, sem saber qual é o gênero real de LOST, os fãs podem sentir-se confortáveis para advogar em prol de seus gêneros e pontos de vista preferidos, o que permite a fãs de estilos bem diversos de programa uma conversa tangencial, exatamente no ponto em que ninguém tem certeza de nada e todos estão perdidos: LOST.
Bibliografia

ALTMAN, Rick. Los géneros cinematográficos. Barcelona, Buenos Aires, México: Paidos, 2000.

ARONCHI DE SOUZA, José Carlos. Gêneros e formatos na televisão brasileira. São Paulo: Summus, 2004.

CAPUZZO, Heitor. O Cinema Além da Imaginação. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1990.

KNOBLOCH, Silvia. Suspense and Mystery. In: J BRYANT, D ROSKOS-EWOLDSEN, J CANTOR. Communication and emotion: Essays in honor of Dolf Zillmann. Lawrence Erlbaum Associates, 2003.

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2003.