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  Título
Dançando no fio da navalha com Solon Ribeiro
Autor
yuri firmeza
Resumo Expandido
O presente artigo visa incursionar na produção, realizada nos últimos cinco anos, do artista Solon Ribeiro. O recorte de tal incursão privilegia as aproximações e desterritorializações operadas por Ribeiro no campo do cinema e da arte contemporânea a partir de uma série de videoinstalações e performances produzidas através da apropriação de fotogramas de cinema.

Solon Ribeiro herdou uma coleção iniciada por seu avô que conta com mais de trinta mil fotogramas de cinema, álbuns catalogados, arquivados, com nome dos atores e dos respectivos filmes. Além do material mapeado, nomeado e organizado, a coleção se constitui também por centenas de fotogramas soltos, guardados de forma aleatória e ainda não catalogados, dos quais Ribeiro chama de “lixo” da coleção.

É no gesto de reciclagem deste “lixo”, sobretudo nas práticas de montagem e projeção, que procede o exercício inventivo das obras audiovisuais de Solon Ribeiro. O arquivo como algo inanimado, identificado, nomeado, ordenado se finda com as operações do artista que reivindica o potencial dessa coleção não como documento inerte, mas, sim, como um cinema orgânico, vivo. Do ponto de vista histórico as obras de Ribeiro dialogam tanto com movimentos como o found footage e o cinema estrutural quanto com as recentes experiências de live cinema. Muitos dos trabalhos de Ribeiro, dentro deste recorte que estabelecemos, tomam a própria dramaturgia do espaço como elemento para suas projeções na cidade – sejam em matadouros, em antigas salas de cinema do centro de Fortaleza ou, ainda, nos corpos de travestis desnudos.

Dentro da problemática apontada pela obra-pensamento de Ribeiro, privilegiamos uma exposição individual do artista intitulada Quando o cinema se desfaz em fotogramas. O fato de privilegiarmos esta exposição deve-se ao grau de imbricação entre arte contemporânea e cinema que a exposição supracitada apresenta.

Com a exposição Quando o cinema se desfaz em fotograma Ribeiro propõe deslocar o espaço expositivo de sua tradicional condição de receptáculo de coisas mortas para o campo da experiência. Com isso, cria um set-festa com DJ e projeções ao vivo concomitantes à projeção de obras audiovisuais produzidas previamente. A própria exposição configura-se como uma obra em processo e inscreve, ao mesmo tempo, uma crítica à rigidez de certas instituições.

Porém, a crítica circunscrita por Ribeiro a esse procedimento – museu-recipiente – não é datada, de morte ao museu, de morte à arte e tantas outras mortes sentenciadas. Solon não é coveiro. É um ressuscitador. Cria dispositivos que nos arranca da letargia, da condição de sobrevivencialismo, da anestesia que nos deixa apáticos, mais mortos do que os restos do cinema e nos posiciona como público participador da obra-exposição-festa.

O espaço expositivo é priorizado e pensado pelo artista como um espaço disponível para a experimentação, por isso, a idéia de laboratório em detrimento dos museus que atuam como sarcófagos. No entanto, diferentemente do interesse das instituições de arte em expor processos de artistas, Ribeiro re-configura o próprio espaço como lugar do risco. O que é totalmente oposto à lógica de fetichização dos resíduos processuais de um trabalho. Ou seja, é durante a exposição que parte da exposição se produz.
Bibliografia

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