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  Título
A construção do fantástico em Fausto, de Aleksandr Sokurov
Autor
Alex Sandro Martoni
Resumo Expandido
O presente trabalho tem como objetivo analisar o modo de construção do fantástico no filme Fausto, de Aleksandr Sokurov, tendo em vista tanto a manipulação de estratégias retórico-formais, como a montagem e a mise-en-scène, quanto em virtude dos aspectos presentes na materialidade da imagem, como textura, composição, luz e sombras.

Ganhador do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza (2011), o filme do realizador russo consiste no último episódio de sua tetralogia a respeito da natureza do poder. Inspirado no drama de Goethe, o Fausto de Sokurov se trata de uma recriação da obra do escritor alemão a partir da qual novos sentidos emergem, entre o insólito e o natural, o onírico e o real, o sublime e o grotesco.

O fantástico, aqui, não será entendido como um gênero historicamente definido, como o foi por parte da crítica literária, ou enquanto uma categoria no processo de produção de um filme no sistema de estúdios hollywoodiano, mas sim como uma modalidade do discurso ficcional marcada pela irrupção do insólito, daquilo que provoca incerteza ao exame intelectual. Nesse sentido, busca-se pensar como aspectos determinantes do estilo fílmico, como fotografia, enquadramento, ponto de vista, montagem e mise-en-scène convergem na criação dessa atmosfera em que o incongruente emerge do clima de aparente normalidade.

Para além de uma análise exclusivamente formalista – método que tradicionalmente é empregado para se pensar o fantástico, intenta-se compreender como o insólito irrompe na própria relação do aparelho perceptivo do espectador com aspectos presentes na materialidade da imagem. Dentro dessa perspectiva, o conceito de Stimmung, cunhado dentro da cultura alemã, se apresenta como uma clave em que se pode ler o filme de Sokurov. Não somente a noção romântica do termo, que motivou, por exemplo, a concepção cenográfica do expressionismo alemão, mas também o modo como tem sido revisitada contemporaneamente no pensamento de Hans Ulrich Gumbrecht, que, articulando esse conceito à investigação sobre a materialidade dos meios que tem sido desenvolvida pela teoria da mídia alemã, busca pensar como a substância material dos objetos afetam nossa percepção estética. Não obstante, o pensamento de Gilles Deleuze será evocado para pensarmos de que modo nossos órgãos de recepção são afetados pela qualidade das imagens exibidas, isto é, cor, luz, sombras e a natureza háptica das mesmas.

Desse modo, essa comunicação visa, a partir de uma metodologia híbrida, a discutir sobre a natureza do conceito de fantástico no cinema contemporâneo. A partir da análise do filme de Sokurov, o fantástico emerge como uma modalidade do imaginário que se realiza numa complexa tessitura que envolve instrumentos retórico-formais, a dimensão material da imagem, os afetos e a experiência espectatorial.
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