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  Título
Um filme 100% brasileiro: o Brasil visto pelos olhos do poeta
Autor
Elizabeth Maria Mendonça Real
Resumo Expandido
Um filme 100% brasileiro (1986), de José Sette é, segundo consta nos créditos, uma adaptação livre da obra poética de Blaise Cendrars. Para fazer esta adaptação, o diretor baseou-se em uma seleção da obra literária de Blaise inspirada em sua experiência no Brasil. Além de poemas, o diretor/roteirista selecionou três textos da série chamada Elogio da vida perigosa: O lobisomem de Minas, O “coronel” Bento e Febrônio índio do Brasil.

A adaptação surge a partir do diálogo com uma obra ou obras anteriores, como um processo de interpretação e recriação que se completa na experiência do espectador. Os limites de uma adaptação, entendida como processo criativo e dialógico, são bastante amplos e nosso interesse nesse trabalho será perceber como esses limites foram explorados pelo diretor, levando-se em conta as possibilidades específicas de cada mídia assim como os entrecruzamentos possíveis entre os meios e linguagens.

Concentrando-se na experiência de Blaise Cendrars no Brasil, o filme inicia com a vinda do escritor de navio e se encerra com sua partida. A experiência brasileira vivida por Cendrars é registrada como uma espécie de delírio. Ainda no navio, o personagem, interpretado pelo ator Savero Roppa, recebe uma descarga elétrica de um raio em meio a uma tempestade tipicamente tropical e transforma-se em outra pessoa. A partir daí, o personagem será vivido alternadamente por Roppa e por Paulo César Pereio, seu lado mais anárquico e boêmio.

A opção pelo uso de cenários pintados e de figurinos estilizados ressalta a artificialidade da encenação e ajuda a compor uma entonação teatral que caracteriza o filme. Sette vale-se do uso de recursos poéticos, com inserções de planos curtos que sugerem metáforas, metonímias, sinestesias, antecipações, mesclando indiferentemente tempos e espaços ligados à memória, à imaginação e à fantasia.

Trazendo o autor como personagem e narrador, o filme extravasa o universo ficcional, caracterizando os eventos narrados de modo subjetivo, a lembrar ao espectador que se trata de uma visão de mundo particular, uma experiência de vida, repleta de sensualidade e poesia, imersa num delírio transformador. Cendrars, como personagem, deixa-se contagiar pela experiência delirante no país do carnaval, da sensualidade e da loucura antropofágica. É a partir de suas emoções e de seu olhar sobre o Brasil que se constrói a narrativa.

A escolha do viés expressionista é apropriada para o tom subjetivo do filme. A visão distorcida da realidade, provocada pelo uso da lente grande angular e representada nos cenários pintados, intensifica a expressão da experiência aguda vivida por Blaise, revelando ao espectador que se trata de uma tentativa de fazê-lo vivenciar o Brasil pelos olhos do estrangeiro. Movimentos de câmera desestabilizadores simulam o balanço do navio ou expressam um estado emocional. Ao ver o filme, mergulhamos no universo da literatura cendrarsiana, guiados pelo próprio escritor. Poético, o filme exige do espectador o uso da intuição e da emotividade diante das imagens de euforia e desespero.

Polifônica, a narrativa se constrói a partir da incorporação de outras vozes à poesia de Cendrars, incluindo textos de autores como Oswald de Andrade e Machado de Assis. Neste filme heterogêneo, elementos narrativos e estilísticos, quase autônomos, se sobrepõem: a poesia, a música, as imagens do carnaval, do sexo e da violência, as paisagens ensolaradas do Rio e os cenários pintados de inspiração expressionista.



Bibliografia

AMARAL, Aracy. Blaise Cendrars no Brasil e os modernistas. São Paulo: Ed. 34 / Fapesp, 1997.



CENDRARS, Blaise. Etc..., etc... (um livro 100% brasileiro). São Paulo: Perspectiva, 1976.



EULÁLIO, Alexandre. A aventura brasileira de Blaise Cendrars. 2ª edição revisada e ampliada por Carlos Augusto Calil. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo: Fapesp, 2001.



HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução André Cechinel. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011.



NAREMORE, James. Film adaption. New Brunswich, New Jersey: Rutgers University Press, 2000.



RUFFINELLI, Jorge; ROCHA, João Cezar de Castro. (Org). Antropofagia hoje? Oswald de Andrade em cena. São Paulo: Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda, 2011.



STAM, Robert. A literatura através do cinema. Realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: UFMG, 2008.