/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A revolução cubana no cinema documental de Chris Marker
Autor
Carolina Amaral de Aguiar
Resumo Expandido
Após o sucesso da Revolução Cubana (1959) e o anúncio de seu caráter socialista (1961), intelectuais e artistas franceses militaram a seu favor. Se entre os pioneiros a conhecer a ilha estavam Gérard e Anne Philipe e Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Chris Marker foi um dos primeiros cineastas ocidentais a visitar Cuba (logo após Joris Ivens), iniciando em 1960 a rodagem de Cuba si! (1961). Marker também esteve em contato com os cineastas do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (Icaic), que desenvolviam o gênero documental, considerando-o o mais adequado para mostrar as mudanças do governo castrista. Alguns anos mais tarde, voltou ao país para realizar La bataille des dix milliones (1970), sobre os novos desafios da Revolução. Nessa segunda visita, ele montou ainda duas produções com exilados políticos brasileiros: On vous parle du Brésil: Carlos Marighela e On vous parle du Brésil: tortures. Vale ressaltar que o intercâmbio entre os documentaristas do Icaic e Marker reforçou determinadas estratégias fílmicas largamente presentes nos cinemas militantes europeu e latino-americano nas décadas de 1960 e 1970.

Esta comunicação analisa dois filmes: Cuba si! e La bataille des dix milliones. O primeiro deles foi proibido pela censura francesa por ser uma propaganda do regime castrista, rebatendo críticas da imprensa internacional ao dirigente (como a acusação de antidemocrático). Já o segundo trata das crises do Estado cubano, sobretudo a econômica, sem abrir mão de uma abordagem favorável a Fidel Castro. Cuba si! celebra a alegria do povo, reforça o caráter popular da Revolução. Suas primeiras cenas, rodadas na véspera do Dia de Reis de 1960, mostra os desejos das crianças cubanas: bonecas e metralhadoras. As armas que libertaram estão presentes em toda sociedade, assim como os tambores militares que trocam as marchas pela conga festiva, em uma cena exaltada por alguns críticos e acusada por outros devido sua mise en scène travestida de tom documental. Esse documentário celebra mais uma vitória dos revolucionários: a derrota norte-americana no ataque à Baía dos Porcos, em abril de 1961. Já La bataille des dix milliones acompanha a luta do Estado cubano para produzir um recorde de açúcar, 10 milhões de toneladas, e assim resolver a enorme crise que assolava a ilha. Montado com extratos de noticiários do Icaic, dirigidos em sua maioria por Santiago Álvarez, heroiciza o esforço popular e o exemplo positivo de seu líder, Fidel, apesar do fracasso em cumprir a exorbitante meta. Se a primeira produção exaltava a Revolução frente às críticas direitistas, em La bataille Marker responde a setores da esquerda europeia, reforçando que a guerra pelo socialismo ainda não acabou. Ele reforça em inúmeras sequências e pela voz over que além da luta pelo regime político, existe uma outra: a dos países do terceiro mundo contra a pobreza e suas precárias condições produtivas.

Esses filmes colaboram para compreender uma leitura do cinema militante francês (especialmente de Marker) sobre a Revolução Cubana, bem como a relação do processo latino-americano com a política da França. Nesse sentido, vale destacar em Cuba si! uma fala de Fidel que defende a “democracia cubana de praça pública” em detrimento às eleições francesas que não satisfazem a necessidade de seu povo. Por outro lado, ao eleger novamente esse tema em La bataille des dix milliones, ele provoca seus próprios companheiros da esquerda francesa ao indicar pela voz over que Cuba havia saído de moda na Europa: “Quando nossos modelos são colocados em cheque pela realidade cotidiana, pelos problemas cotidianos, nos os abandonamos.”.

A comparação entre essas produções permite compreender dois momentos distintos da Revolução Cubana na França: um inicial encantamento e um segundo período de crítica, quando o modelo de uma aliança democrática entre os partidos de esquerda emerge como possibilidade de uma nova via para se chegar ao socialismo.
Bibliografia

ALVAREZ, Santiago et. al. Cine y Revolucion en Cuba. Barcelona: Editorial Fontamara, 1975.

DUBOIS, Philippe. Théorème 6: Recherches sur Chris Marker. Paris: Presses Sorbonne Nouvelle, 2002.

GAUTHIER, Guy. Chris Marker: écrivain multimédia ou voyage à travers les médias. Paris: L'Harmattan, 2001.

GUEVARA, Alfredo. ¿Y si fuera una huella?. Havana: Nuevo Cine Latinoamericano, 2009.

HABIB, André ; PACI, Viva. Chris Marker et l’imprimerie du regard. Paris : L’Harmattan, 2008.

LAMBERT, Arnaud. Also known as Chris Marker. Cherbourg: le Point du jour, 2008.

LEENHARDT, Jacques. Les Amériques latines en France. Paris: Découvertes Gallimard: A.F.A.A., 1992.

LUPTON, Catherine. Chris Marker: memories of the future. Londres: Reaktion Books, 2008.

MARDORE, Michel. “Conga no”. In: Cahiers du cinéma, nº152 fev. 1964.

O bestiário de Chris Marker. Lisboa: Livros Horizonte, 1986.

VILLAÇA, Mariana. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.