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  Título
Espectadoras: recepção e gênero na Belém dos anos de 1920
Autor
EVA DAYNA FELIX CARNEIRO
Resumo Expandido
Nos anos de 1920, era comum nos cinemas de Belém, a prática de diferentes atividades, que não a exibição fílmica, no processo de atração do público. Além dos descontos em produtos como chopp, sorteios, os espectadores também eram presenteados com souvenirs por parte das casas exibidoras. A maior parte dos brindes era de produtos voltados para o público feminino. “Pó de arroz” e leques era alguns dos mais frequentes “agrados”, o que revela a presença marcante das mulheres nos espaços dos cinemas. As mulheres formavam um dos grupos de frequentadores cativos que lotavam os cinemas locais, daí a grande preocupação dos exibidores para com os brindes e “adulações” a elas. Era a elas que a nota de A Semana de 1920 se dirigia, quando falando sobre “a chuva torrencial de terça-feira”, que atrapalhara a sessão do cinema Edén, dizia que a mesma foi “de uma impiedade sem nome para as nossas gentis elegantes” .

Era dada tamanha importância a este público específico que algumas salas de projeção programavam sessões especiais, dedicadas as mulheres. Alexandre Vale comenta que, a frequência das salas em sessões distintas, masculino e feminino, sempre foi uma constância nos cinemas. Lembra ele, que nos primórdios do cinema, essa diferenciação se dava de forma esporádica, “de acordo com um ou outro filme que a imprensa e a igreja classificavam como ‘indecente’”. No caso de Belém, a igreja também assumia o papel de censora dos filmes, o que levava a divulgação em seu jornal, A Palavra, de uma classificação dos filmes em inofensivo, mau, não deve ser assistido, entre outros. No entanto, havia aqui sessões especiais dedicadas às mulheres, como forma de atração daquele público específico.

É importante lembrar ainda que estas mulheres não pensavam e se comportavam da mesma maneira. Havia diferentes tipos de mulheres que frequentavam aqueles espaços, desde “gentis senhorinhas da elite local”, a diferentes tipos de prostitutas, de mulheres trabalhadoras pobres, entre outras. A convivência forçada entre os espectadores era marcada também pela presença incômoda de algumas frequentadoras que destoavam daquilo que se esperava para o público feminino frequentante das salas. Nesse grupo de frequentadoras “indesejadas”, estavam as mariposas, gicolettes e cocottes.

Os anos de 1920 marcam um período de pujança dos cinemas em Belém, com a consolidação de uma rede fixa de salas de projeção. O êxito desses espaços de exibição só fora possível por que havia aqui, um grande número de pessoas que se identificavam com o que era nele vinculado. A consolidação desses espaços de lazer não seria explicada apenas pelo prazer do novo, do fantástico, nem tão pouco poderia ser justificada pura e simplesmente pela superação de julgamentos e censuras aos “valores modernos” e consequente aderência cega a esses “novos modelos”, desleixadamente copiados, que eram divulgados pelas estrelas do écran. Em oposição a isto, as ideias e mudanças comportamentais antecedem o objeto fílmico, e este só tem significado à medida que é reconhecido e internalizado por aquele que a “recebe”.

A frequência com que Pola Negri e Theda Bara aparecem como modelos de inspiração para o comportamento das moças é incomparavelmente superior ao daquelas que representavam a mulher “ideal”. O espectador urbano era cercado por uma “cultura cinematográfica”, esta gerava uma série de reações, que nem sempre eram compartilhadas. Segmentos da Igreja e as famosas cine-girls lançavam sobre estas representações femininas, olhares diferenciados. A forma como cada um destes grupos viam os filmes e perfis femininos exibidos na tela estava diretamente relacionada aos anseios e visões de mundo de cada um.
Bibliografia

ÁLVARES, Maria Luzia Miranda. Saias, laços e ligas: construindo imagens e luta [Um estudo sobre as formas de participação política e partidária das mulheres paraenses 1910/1937]. 1990, 954. Dissertação de Mestrado - Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. Universidade Federal do Pará (UFPA/NAEA), Belém, 1990.

ARRUDA, Ângela. Teoria das representações Sociais e teorias de gênero. Cadernos de Pesquisa, n. 117, p. 127-147, Novembro de 2002.

AUMONT, Jacques et al. A estética do filme. Campinas: Papirus, 1995.

CARNEIRO, Eva Dayna Felix. Belém entre filmes e fitas: a experiência do cinema, do cotidiano das salas às representações sociais nos anos de 1920. Dissertação (Mestrado)- UFPA, IFCH, Programa de Pós-Graduação em História. Universidade Federal do Pará, Belém, 2011.

FERRARESI, Carla Miuccci. Papéis normativos e práticas sociais: o cinema e a modernidade na elaboração das sociabilidades paulistana na São Paulo dos anos de 1920. 2007, 475. Tese (Doutorado).Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007.