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  Título
Festivais audiovisuais e a mídia: uma análise das estratégias do discurso contemporâneo
Autor
Tetê Mattos [Maria Teresa Mattos de Moraes]
Resumo Expandido
No segmento do audiovisual, podemos afirmar que os festivais de cinema são uma das atividades que possuem forte visibilidade na mídia, devido às características inerentes a esta atividade de produção. Esta forte repercussão dos festivais pode ser atribuída a vários aspectos que estão ligados ao caráter de espetacularização, ao acontecimento eventual, de apresentação de obras audiovisuais inéditas, da presença de artistas e celebridades, entre tantos outros aspectos de interesse midiático da sociedade contemporânea. Contudo, observamos algumas tendências recorrentes no discurso dos críticos e jornalistas referente aos festivais brasileiros, que merecem serem melhores compreendidas.

Nesta comunicação buscaremos analisar, exemplificar e aprofundar as questões ligadas à produção do discurso midiático referentes aos festivais de cinema e vídeo no Brasil. Buscaremos estabelecer uma relação entre o discurso midiático, o perfil / porte dos festivais e a sua legitimação e eficácia junto ao público espectador e ao segmento do audiovisual. Analisaremos os discursos produzidos na grande mídia através dos cadernos impressos de cultura e dos blogs dos críticos e jornalistas culturais, privilegiando os textos que tratam dos aspectos referentes às práticas culturais dos festivais, em detrimento das interpretações dos textos fílmicos. Também serão objeto de nossa análise os sites especializados e alguns discursos que tiveram grande repercussão e participação do segmento audiovisual nas mídias e redes sociais.

Em A Ordem do Discurso o filósofo Michel Foucault analisa os três grandes sistemas de exclusão que atingem o discurso: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade. A partir desta análise, tomaremos como exemplo matérias como a publicada na coluna da jornalista Monica Bergamo, no caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 30 de setembro de 2008, com uma afirmação do famoso produtor Luiz Carlos Barreto que criticava a existência de inúmeros festivais de cinema no país, e que gerou grande repercussão na mídia e no segmento audiovisual. A soberba do discurso de Barreto, a imprecisão dos dados por ele citado, o desconhecimento pelo cineasta do segmento dos festivais, e o privilégio do segmento da produção em detrimento ao segmento da exibição/difusão serão objeto de nosso estudo, procurando analisar as relações de poder, isto é, a “vontade de verdade” no discurso do produtor, em seu sentido e coerência discursiva. Também será objeto de nossa análise textos publicados em sites especializados, como o do jornalista e crítico de cinema Marcelo Lyra intitulada Filmes são acessórios para os festivais de cinema?, disponibilizado em 2011 no site www.cinequanon.art.br, que obteve grande repercussão e comentários nas redes sociais. Lyra, ao tratar do processo de seleção e curadoria dos filmes nos festivais de cinema brasileiros, provoca um grande debate acerca do tema, nos fornecendo elementos e pistas para uma reflexão aprofundada acerca da relações de poder e legitimação entre a crítica, os festivais, os filmes e os espectadores.

Como mencionamos acima, a espetacularização é uma das características inerentes aos eventos culturais, que por sua vez, possuem importante significação cultural numa sociedade em que se apresenta cada vez mais ancorada no espetacular. Todo o aparato que envolve um festival de cinema, aproximam esta manifestação cultural ao entretenimento, e desta forma, geram forte interesse no público presente. Os festivais se apresentam como uma ferramenta estimuladora, multiplicadora e arregimentadora de plateias e de formação de público para um modelo de cinema que não encontra espaços de veiculação, frente aos padronizados mercados hegemônicos. Dado a este caráter estratégico no mundo contemporâneo de circulação de filmes investigaremos o papel da mídia frente a esta manifestação cultural.
Bibliografia

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BAZIN, André. Du festival considéré comme um ordre. In: Cahiers du Cinema, juin 1955.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk Editora, 2011.

CANCLINI, Nestor García. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

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KELLNER, Douglas. A Cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre moderno e pós-moderno. Bauru, SP: EDUSC, 2001.

PORTON, Richard (org.). On Film Festival. (Série Dekalog 3) Inglaterra: Wallflower Press, 2009.