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  Título
A ambiguidade da direção em Bicicletas de Nhanderú
Autor
Moacir Francisco de Sant´Ana Barros
Resumo Expandido
Na tradição do cinema, o ato de dirigir um filme pressupõe o controle do sujeito que filma sobre todo o processo de produção fílmica, estabelecendo os limites da encenação – o que por em cena e que relações se estabelecem entre o sujeito filmado, o diretor e a câmera? Essa construção fílmica fechada, fortemente expressa nos filmes ficcionais ganha outra dimensão no cinema documentário, na medida em que este buscou, historicamente, modos de fazer que possibilitassem a representação da realidade. A não intervenção do cineasta que assume um olhar observador sobre os sujeitos filmados expressa no cinema direto norte-americano e a defesa da intervenção na cena pelo cinema verdade francês, sobretudo em Jean Rouch, trouxeram novas reflexões sobre as relações entre sujeito filmado e sujeito que filma.

No documentário Bicicletas de Nhanderú (VNA,2011), de Patrícia Ferreira e Ariel Ortega, índios da nação Mbya-Guarani, há uma relação de ambiguidade expressa entre a direção do filme e seus personagens que revela as maneiras do indígena se relacionar com o cinema e com a alteridade. Bicicletas se desenvolve em torno da figura do velho índio Solano, líder espiritual da Aldeia Koenju, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. Ariel, além de dividir a direção do documentário com a sua esposa, Patrícia, aparece também como personagem da história. Ele está presente nas cenas e interfere nelas, a partir do momento em que é ele quem conduz a maioria dos diálogos com outros do grupo. Ariel não se vale das entrevistas nos moldes tradicionais. Ele conduz uma conversa informal com os seus personagens com os quais o diretor possui laços étnicos e afetivos. Daí advém a familiaridade do contato entre quem filma e quem é filmado, como se a câmera não fosse algo externo, mas integrante da cena expressa pela duração dos planos e o jogo com o dentro e fora de campo, que permite ao observador o envolvimento com o que está posto em cena. Ao mesmo tempo, a câmera revela as minúcias de gestos, os movimentos das personagens e, sobretudo, uma relação de respeito à situação em que os sujeitos se encontram.

Mas por estar entre a direção e a encenação, Ariel assume posturas oscilantes entre a intervenção ou não intervenção na cena. Numa delas, acompanha dois pequenos índios até a casa da fazenda vizinha à aldeia. Diferente das cenas rodadas na aldeia, onde a câmera adquire um caráter participativo, a direção parece hesitar entre deixar os meninos à vontade quando insistem em permanecer no local ou assumir-se como o parente mais velho que deve cuidar das crianças. A câmera, por sua vez, adquire uma postura de exterioridade oscilando às vezes em mostrar o homem branco ou se afastar dos limites desse outro território, onde muitas vezes o ameríndio não é bem vindo.

Bibliografia

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