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  Título
A construção da mise en scène: um olhar sobre a direção como processo
Autor
Marcelo Rodrigo Mingoti Müller
Resumo Expandido
David Bordwell constata que “Desde o começo do século XX até os anos 1970, os diretores da indústria cinematográfica em todos os continentes tinham que transformar roteiros em cenas, e essa tarefa envolvia detalhar, momento a momento, as relações dos personagens no espaço.” (2008, p. 28). Neste sentido, Gibbs vai além na descrição destes elementos do quadro, que "incluem iluminação, cenário, figurino, objetos e os atores em si. A organização do conteúdo do quadro abrange também a relação dos atores uns com os outros e com o cenário, mas também sua relação com a câmera, e até com o ponto de vista do público. Assim, ao falar sobre mise-en-scène também temos que falar de enquadramento, de movimentos de câmera, da lente especificamente empregada e outras decisões fotográficas. Mise-en-scène, portanto, engloba tanto o que o público pode ver quanto a maneira em que somos convidados a vê-lo. Refere-se a muitos dos elementos principais da comunicação no cinema, e as combinações através das quais eles operam de forma expressiva." (2002, p. 5, tradução nossa)

A mise en scène que vemos projetada na tela de cinema quando o filme é terminado resulta de um processo complexo do desenvolvimento da obra, que envolve as definições e a construção física de todos os elementos que irão compor os quadros e, consequentemente, o filme. Para entender como é o trabalho do diretor cinematográfico, principalmente com objetivos docentes, é necessário entender este processo. Mas não se trata apenas de analisar individualmente uma série de operações realizadas em cada uma das etapas do trabalho de realização, já que a complexidade de relações realizadas em um período bastante longo de tempo, onde atuam muitas pessoas em etapas muito diferentes entre si, fragiliza análises que se dedicam a fragmentos estanques do processo de realização sem considerar o movimento que há entre eles.

Como observar o processo de construção da mise en scène em um filme? Como analisar um processo tão complexo, que ocorre num tempo tão longo e sofre a influência de tantos elementos?

No desenvolvimento da nossa tese de doutorado, estamos procurando um caminho para realizar uma “análise do trabalho de escrita” (Salles, 2006, p. 224) de todo o processo de construção da mise en scène em filmes de longa-metragem de ficção, estudando como o diretor lida com as características que fazem suas etapas diferentes entre si e as maneiras e possibilidades que tem para fazer o filme. Quais as materialidades e condições para a superação de cada uma das etapas? Que técnicas, materialidades e instrumentos o diretor utiliza em cada uma delas? Quais documentos de seu processo de criação têm elementos que nos permitem olhar criticamente para sua obra? Que linhas de força dão sentido às decisões que o diretor toma? Como esta série de operações se transforma em um filme específico?

Parte dos elementos metodológicos usados no desenvolvimento desta proposta de análise do processo de construção da mise en scène são tomados da crítica do processo, desenvolvida por Salles, entre outros autores. Esta abordagem nos permite utilizar uma série de conceitos que nos dão uma ideia de movimento na construção de obras artísticas, pois, ao pensarmos a criação como rede, não apenas de pessoas, mas também dos elementos que compõe a obra, nos deparamos com a ideia central de que “A criação artística é marcada pela sua dinamicidade que nos põe, portanto, em contato com um ambiente que se caracteriza pela flexibilidade, não fixidez, mobilidade e plasticidade”. (SALLES, 2006, p. 19). A constatação dessa dinamicidade fica evidente quando observamos processos de filmes contemporâneos como Antônia, de Tata Amaral (2006), onde a diretora desenvolveu um trabalho de improvisações com os atores pensando a realização como movimento de transformação que apontava para um determinado caminho, mas nunca tentou fixar em um documento de preparação (sequer o roteiro) como ele ficaria terminado.

Bibliografia

AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Texto & Grafia, 2006.



BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz - a encenação no cinema. Papirus, Campinas: 2008.



CARRIERE, Jean Claude; BONITZER, P. Practica del Guión cinematográfico. Buenos Aires: Paidós, 1998.



EISENSTEIN, Sergei M. E NUNY, Vladimir, Mettre en scène (1934- 1935). Paris, UGE, 1973.



EISENSTEIN, Sergei, Questions de mise en scène: “Mise en jeu” et “mise en geste”. Deux micro-études de L’idiot de Dostoievski et du scènario de K. Vinogradskaia, Le Mouvement de l’art, Paris, Ed. Du Cerf, 1986.



GIBBS, John. Mise-en-scène, film style and interpretation. London: Wallflower Press: 2002.



SALLES, Cecília A. Gesto inacabado, processo de criação artística. Annablume: São Paulo, 2004.



_____________. Redes de criação: construção da obra de arte. Horizonte: São Paulo, 2006.