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  Título
Os cinemas dos José(s), de espectadores a exibidores
Autor
Cristina dos Santos Ferreira
Resumo Expandido
A cinefilia é uma vida que se constrói em torno dos filmes, já disse Antoine de Baecque (2010). Trago aqui para reflexão, um pouco da história de três José(s) brasileiros que dedicaram a vida ao cinema e, cada um a seu modo, (re) inventaram seus próprios cinemas. O curta Cine Zé Sozinho de Adriano Lima nos fala da trajetória do pernambucano José Raimundo Cavalcanti, que saiu de casa aos doze anos e foi para Fortaleza viver sua paixão pelas telas, passando a limpar salas de cinema em troca de assistir os filmes que eram exibidos. Mais tarde, em Caririaçu, no interior do estado do Ceará adquiriu um projetor e dedicou mais de 30 anos à atividade de exibidor percorrendo várias cidades nordestinas e mostrando filmes em salas improvisadas.

O segundo José, o José Luiz Zagati é personagem do filme realizado por Edu Felistoque e Nereu Cerdeira. A primeira sessão de cinema ficou gravada na memória deste homem que diz que “metade da sua vida é cinema” e vive da atividade de reciclar materiais que encontra pela cidade de Taboão da Serra, SP. Zagati criou o Mini Cine Tupi, uma sala de cinema onde exibe filmes para as crianças do lugar.

O terceiro José, o japonês, também tem um curta-metragem dedicado a sua vida em torno do cinema. O ofício de técnico especializado no conserto de projetores de cinema fez dele um exibidor de filmes no quintal de casa. O curta Duralex sedlex, dirigirido por Luciana Tanure, Henrique Silveira e Marília Rocha fala da trajetória de José Uemoto Mata.

A proposta da sessão é refletir sobre as (re) invenções do cinema por esses três José(s). Essas (re) invenções chegam ao público por meio das imagens e sons dos três documentários produzidos. A abordagem parte do fascínio pela sala escura, na qual a luz do projetor cria magia a atiça a imaginação, ao prazer pelo ofício de levar o cinema a outros.

A memória das primeiras sessões de cinema vistas teve um papel fundamental na constituição da condição de cinéfilos dos sujeitos apresentados nos curtas, porém, mais do que fascinados por determinados filmes, atores, diretores, os três são fascinados pela projeção, pela tela, enfim pela sala de cinema. Como diz Robert Stam (2006) é o dispositivo cinematográfico que nos logra, desde a sala de exibição à câmera, projetor e até a ação que se processa na tela.

Partindo da noção de Michel de Certeau (2004) da leitura como incursão e da ideia de bricolagem, que apresenta Levi-Strauss (1997) pode-se refletir sobre a apropriação por esses sujeitos do cinema como “um todo”, quando reaproveitam e reutilizam projetores que estavam inutilizados, recriam o espaço físico da sala de projeção e reaproveitam rolos de filmes que foram descartados.

Para Stam (2006), “a espectatorialidade pode transformar-se em um espaço liminar de sonhos e autoconfigurações”. Os sonhos e as lembranças de José Zagati e Zé Sozinho se metamorfoseiam nas projeções que eles proporcionam pela reciclagem material e simbólica.

Dos três José(s), o pernambucano Cavalcanti foi aquele que mais se apropriou dos filmes que exibiu, reconstruindo-os. Em um de seus depoimentos, ele assume que não satisfeito com o desfecho de alguns, recortava e colava trechos com fotogramas de outros filmes, imbuído da intenção de agradar os espectadores das sessões que promovia.

Na obra de Morin (1970) sobre o cinema, o autor fala que o “cinematógrafo” (projeção) determina um espetáculo, porque estimula a participação (ação). O poder de participação revolucionou o “cinematógrafo” projetando-o para o imaginário, porém o autor enfatiza a limitação da participação do espectador, quando ao assistir o filme, o espectador não passa à ação propriamente, esta é interiorizada. No caso aqui discutido, dos três José(s) a “projeção” se configura em “ação” a partir das criações dos mesmos. Uma vez que transformam seu fascínio pela projeção na tela da sala escura de cinema em outras ações: as projeções coletivas que promovem.

Bibliografia

BAECQUE, Antoine de. Cinefilia: invenção de um olhar, história de uma cultura. 1944-1968. São Paulo: Cosac Naify, 2010.



CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer (1). Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2004.



LEVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Campinas: Papirus Editora, 1997.



MORIN, Edgar. O cinema ou o homem imaginário. Lisboa, Portugal: Moraes Editores, 1970.



STAM, Robert. Introdução à teoria do cinema. Campinas/SP: Papirus Editora, 2003.



_____________. Teoria do cinema e espectatorialidade na era dos pós. In: RAMOS, Fernão. (org.) Teoria contemporânea do cinema. Pós-estruturalismo e filosofia analítica. Vol. 1. São Paulo: Editora Senac, 2005.p. 393-424.